Hoje nossa conversa é com uma mulher que leva Arruda no nome. Erva forte, de terra dura e seca, que mesmo calejada leva a força do cheiro em suas cores. Débora é assim, do tipo que não cala porque não tem medo de gritar e dizer e rimar. Ela fala de vida real, abre portas com o coração, tem os detalhes do dia-a-dia como grande inspiração. Em nossa conversa, ela nos conta um pouquinho sobre sua relação com seu corpo, nudez, empoderamento feminino, poesia e arte. Ela nos inspira porque usa das palavras pra desatar as mãos e transformar o mundo num lugar onde podemos simplesmente viver, e não sobreviver. Diz que “a poesia pode não derrubar os muros que nos separam, mas ela nos dá força pra gente ter como pular”.

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S.T. – Fale um pouquinho sobre você… Quem é Débora? O que gosta de fazer em seu dia-a-dia?

D.A. – Eu não gosto de falar sobre mim e sei que ao afirmar isso já estou falando, confuso, né? As pessoas que me olham com o microfone na mão, costumam me achar muito séria e fechada. Eu compreendo que elas tenham essa impressão, pois os meus poemas falam de vida real e ela além de dura, caleja a gente pra ser dura também.

Os meus dias são normais, eu cuido da minha casa, penso no que vou fazer para o almoço, fico sentada sozinha no ponto de ônibus por horas e durmo mal sem saber como vou pagar as minhas contas.

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Débora Arruda por Angélica Lima

S.T. – Como é o diálogo entre sua cabeça e o coração?

D.A. – Difícil.

Sabe quando a gente está na casa de alguém e não espera a pessoa para abrir a porta? Aí a gente vai lá e bate, empurra, chuta, entorta a chave e não abre. Essa é a minha cabeça. A dona da casa enfia a chave no buraco bem devagarinho e abre em menos de 3s, esse é o meu coração.

S.T. – Quem é Débora entre quatro paredes?

D.A. – Barulho e solidão.

S.T. – Como é ser mulher em nossa sociedade? Poderia falar um pouquinhos sobre empoderamento feminino? Como estão os homens no meio disso tudo?

D.A. – A primeira vez em que ouvi falar de empoderamento eu pude atravessar um portal onde eu encontrei várias mulheres do outro lado. Hoje ouço falar de empoderamento como um portal dentro de si e infelizmente algumas pessoas embarcam nessa viagem e não voltam mais… Acredito que o nosso empoderamento tem que ser para o fortalecimento coletivo, para retomar o poder numa perspectiva de mudar a sociedade. Dentro dessa sociedade existe todo mundo – não só a bolha onde vivemos- inclusive os homens, mas que não me parecem tão interessados no todo, pois adoram falar que são desconstruídos, ao invés de dizer que estão em desconstrução. Ninguém está completamente desconstruído. No dia que alguém disser isso por aí, você pode dizer a essa pessoa que ela não sabe de nada. A gente sente na pele todos os dias as marcas que uma sociedade opressora é capaz de deixar em nós, ser mulher dentro dela é saber que o processo de desconstrução é eterno e que essas marcas ainda vão doer muito, porque o tempo passa e a gente ainda continua lutando pelas mesmas coisas.

S.T. – Qual a sua relação com seu corpo e a nudez?

D.A. – Não consigo ver meu corpo e a nudez dentro de uma relação de hábito, vejo a nudez como algo pontual, um ato que acontece naquele momento, um estado. Eu estou vestida o tempo inteiro, mas em alguns momentos eu estou nua.

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Débora Arruda por Fernando Correia

S.T. – Como foi a sua última gargalhada? O que mais te fascina?

D.A. – Eu dou risada de tanta besteira, que nem sei se vale a pena contar. As pessoas vão parar de ler a entrevista por aqui mesmo hahaa.

As crianças. Elas me fazem perceber o quanto somos polidos ao longo da nossa vida e quantos filtros existem dentro de nós

S.T. – O que te causa revolta?

D.A. – Sentir as mãos atadas e não poder fazer nada, ter que me conformar com as coisas como elas são.

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Débora por Pritty Reis

S.T. – Quais são as suas maiores inspirações? Quais autores te inspiram?

D.A. – Os ônibus, as escolas, as crianças. A rua. Carolina Maria de Jesus, Dona Nadir da Mussuca, Kathleen Hanna, Ana Cristina César, Miró, Marcelino Freire, Nivea Sabino, Lidi de Oliveira, Luiza Romão, Pedro Bomba, Marcella Almeida, Marcio Junqueira , Clara de Noronha, Lucian Smash, Líria Regina, Allan Jonnes, Morgan Souza. E um grande homem chamado Reginaldo Daniel Flores, mas esse a gente lê vivendo ao lado dele.

S.T. – E a internet… que lugar é esse?

D.A. – É uma grande festa a fantasia onde as pessoas podem usar o que quiser. Inclusive capas da invisibilidade que só permitem mostrar tudo aquilo que é estranho demais para ser visto nas ruas.

S.T. – Qual sua palavra preferida? Por quê?

D.A. – Movimento.

Me deixe parada pra você ver!

S.T. – O que é poesia pra você? Você acredita que a poesia seja uma linguagem acessível a todos? Como é se comunicar através dela? Na sua opinião, o que a poesia pode fazer pelo mundo?

D.A. – Manoel de Barros dizia “não preciso do fim para chegar”, a poesia para mim é isso.

Carolina Maria de Jesus catava papel no lixo, alguns ela vendia e outros ela guardava para ter onde escrever. Minha mãe, que estudou até a quarta série, também precisou catar muita coisa no lixo, dentre essas coisas, sacolas de plástico que serviam para guardar as folhas de papel que ela levava para escrever na escola. Quando ela leu Carolina, me disse que eu só emprestava coisas tristes pra ela ler. Depois ela voltou pro meu quarto e disse que triste mesmo era a vida do pobre.

Ela não tinha lido a poesia de Carolina que diz “é triste a condição do pobre na terra”, mas tinha acabado de fazer uma também.

A poesia pode não derrubar os muros que nos separam, mas ela nos dá força pra gente ter como pular.

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Parceria de Débora Arruda e João Henrique

S.T. – Você acha que a poesia falada em palco ou em vídeo, está tendo mais visibilidade que a poesia escrita? Como é participar de saraus?

D.A. – Eu sou de uma geração que nunca gostou de ler e que além de não possuir nenhuma afinidade com os livros, não recebe nenhum estímulo para isso. Na disciplina de Literatura Brasileira II, eu estava no primeiro dia de aula de uma matéria que iria falar sobre uma das coisas que eu mais gosto na vida… A professora fez uma pergunta, que eu imagino que se ela pudesse voltar no tempo, jamais teria feito: “quem aqui gosta de ler?”. Éramos quarenta e cinco alunos, turma cheia, início de semestre, mas somente três pessoas levantaram a mão. Claro que quem lê não precisa, necessariamente, estar na universidade, mas quem está na universidade precisa ler.

Os saraus e os vídeos conseguiram trazer a poesia pra perto de muitas pessoas, que até então, estavam muito distantes dela.  Estar nos saraus é viver tudo isso e perceber o quanto a poesia acontece a partir de uma relação de troca. A gente recita uma poesia, depois ouve um verso que alguém fez depois de nos ouvir ou então a gente escreve um verso depois de ouvir alguém e só vai…

O sarau nos permite conviver com os nossos contemporâneos, faz a gente se reconhecer dentro do outro e perceber que estamos disputando a rua, a vida, a literatura e o mundo juntos, ao invés de estarmos somente dentro da nossa casa escrevendo sozinhos, a gente se alimenta da produção do outro e vai embora querendo mais. Quando a gente quer ler mais daquela pessoa, a gente procura o livro e o texto escrito. Então acho que a poesia falada e a escrita caminham juntas.

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S.T. – Você faz oficinas com crianças… Fala pra gente sobre suas experiências no campo da educação. Fale sobre seus projetos…

D.A. – Eu sou formada em Letras e durante o começo da graduação busquei infinitamente por alternativas de trabalho fora da sala de aula. Quando eu entrei na sala de aula pela primeira vez fiquei desesperada, passei a me ver como professora de uma forma real. No meio de tudo isso, o Sarau Debaixo surgiu e me mostrou, de fato, outra possibilidade de trabalho, mas dentro da sala de aula e enquanto poeta.

Numa das oficinas de poesia uma aluna do 4º ano me disse que a escola é uma escada rolante que entra na nossa mente, outro aluno enquanto ouvia isso dizia “a professora vai brigar”, ele mal finalizou a frase e veio outro menino que o interrompeu dizendo “ela não é professora não pô, ela é poeta”. A conversa foi finalizada com um “ah, tá”, seguido de uma respiração de alívio.

S.T. – Qual a sua relação com as palavras solidão, tempo, loucura, humanidade e amor?

D.A. – Solidão: tentei ler tudo, mas não consegui… só li dão.

Tempo: meu tempo é agora.

Loucura: estágio avançado da sensibilidade humana, enquanto a gente só consegue ver o louco, eles sentem a cura.

Humanidade: teria uma característica mais humana do que transformar tudo em dinheiro?

Amor: quando criança eu achava que era algo muito grande, hoje acho que são detalhes.

S.T. – Como você vê o mundo? Há algo que você mudaria nele?

D.A. – É o lugar onde a gente sobrevive, eu o transformaria no lugar onde a gente simplesmente vive.

S.T. – Teria algum projeto que você gostaria de ver sendo divulgado por nós? Por quê?

D.A. – Citei algumas pessoas aqui que possuem projetos incríveis, mas vou divulgar duas que não foram citadas. Anne Souza, poeta e grande guerreira e Camilla Galvão, que também é poeta, mas tem pintado quadros incríveis ultimamente. Me sinto muito forte por saber que vou ao lado delas.

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Débora Arruda por Felipe Goettenauer

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 Para conhecer o trabalho de Débora Arruda e acompanhar as novidades acesse seu 

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. Débora Arruda por Sem território .

 

 

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