Entre dançar, pintar, ouvir música e cantar ela é uma mulher daquelas que deseja tanto… que se perde em sua própria vastidão. Tem brilho no olhar, força na voz e uma busca imensa. Ela também é mãe e dizem que essa experiência é de mudar o rumo de muitas coisas. Lau escolheu com isso, ter voz e dar voz àquelas que estão passando pela infinita experiência de gerar uma vida. Doula, uma das criadoras do grupo Artemisa, ela traz pra gente nessa conversa muitas informações a respeito do tema. Fala sobre direitos, relata de forma emocionante sobre a experiência do parto e afirma que precisamos urgentemente mudar a forma como chegamos ao mundo. No mês das mães, esperamos que essa conversa possa dar a luz à muitos a respeito dessa tarefa árdua e imensa que é a maternidade. Esperamos que gostem e boa leitura! 

*

S.T. – Fale sobre você. Quem é Lau Ana? O que você gosta de fazer no seu dia-a-dia?

Já vou iniciar falando que eu sou uma pessoa extremamente desfocada haha!! Tenho vontade de fazer muitas coisas diferentes ao mesmo tempo e isso acaba me atrapalhando um pouco. Aquele eterno dilema de: será que eu escrevo um projeto ou vou investir na dança, se eu construo uma casa ou vou viajar…e aí penso penso penso, fico aérea e as coisas não andam. Fico filosofando muito sobre a vida, sobre a espiritualidade das coisas e  tenho a dificuldade de lidar com situações burocráticas e práticas do dia a dia.

Mas no geral tenho muito prazer em trabalhar com gestantes, apesar da necessidade de amadurecer muita coisa em mim com relação à esse serviço, o auto-desenvolvimento é constante, eterno. Sou  um pouco ansiosa, tenho melhorado bastante. Não consigo muito lidar com injustiça, como uma boa libriana que eu sou rsrs. Então às vezes sou direta e acabo ferindo alguma pessoa no modo de falar, um pouco autoritária. As vezes acho que deveria ser mais direta ainda, porque em algumas situações engulo e isso me faz mal. Então a busca é equilibrar entre: ser bem direta sim, mas melhorar a forma de falar pra pessoa, atingindo sem ser violenta.

O  trabalho com as gestantes acredito que vem mais no sentido de sanar uma missão que identifiquei quando pari a Maitê, minha filha hoje com 5 anos. Fiquei muito revoltada com a realidade de muitas mulheres que recebem seus filhos no hospital, senti uma tristeza profunda pelas outras irmãs e uma vontade imensa de tentar fazer algo pra transformar. O tratamento dos profissionais que lidam com esse trabalho é totalmente cruel, uma violação no corpo da mulher e do bebê também, dos seus direitos de parir dignamente. Considero hoje que esse trabalho com gestantes é fundamental, tem que existir. Me vejo como uma mediadora de informações, uma ponte pra que a pessoa conheça as alternativas, saiba dos seus direitos e corra atrás das suas escolhas. Isso é uma coisa que eu curto muito fazer, não quero influenciar ninguém dizendo o que é certo ou errado, nem quero fazer nada por ninguém, a própria pessoa que faz por ela. Quero apenas levar a informação às gestantes pra que elas busquem saber o que tem por trás desse mundo cruel e sigam sua intuição, considerem a própria potência de cura que elas tem.

Agora, uma outra coisa que gosto de fazer é dançar, pintar, ouvir música e cantar…coisinhas que quero ter tempo pra fazer por prazer, e já está começando a fluir ❤ ❤ ouvir música tem que ser todo dia, se não não dá, né? 68680_386519774759449_1627612188_n

S.T. – Como é para você a experiência de ser mãe? Quais suas maiores experiências desde a gravidez? Pensa em engravidar de novo?

A experiência foi e está sendo maravilhosa, só benção da espiritualidade! Tive um despertar que foi muito importante ter vivido. A gente vive aquilo que é importante pro nosso crescimento, nossa transformação. Desde a gestação já tenho tido a oportunidade de mudanças, como por exemplo, conseguir me posicionar mais diante da família (tios, mãe, pai e irmãos), deixar de ser a menininha, a filha destrambelhada, pra ser a mãe, a mulher responsável por outro ser. A Maitê veio do jeito que precisava pra eu poder enxergar muitas coisas, que estão sendo desvendadas aos poucos, claro! E ao mesmo tempo que agradeço por ela ter me escolhido pra ser sua mãe, fico feliz de poder ter um pouco de tempo e paciência pra auxiliá-la nessa jornada. Não é fácil! E não é por acaso que ainda não veio outro filho (apesar de querer ter mais um), e também não por acaso que ela escolheu Lauana e Billi pra ser os mediadores, com um estoque de paciência e tolerância além do normal rsrs. A Maitê é uma criança super mega sensível e ao mesmo tempo reage com brutalidade e agressividade em algumas situações, devido ainda não saber lidar com tanta sensibilidade. Exige muita atenção, dedicação! Então é uma missão aí que veio pra mim, estudar e aprender a lidar com a situação. Por que é aí que tá a dificuldade, eu tenho que trabalhar muitas coisas em mim também, do meu jeito de falar, da minha personalidade pra poder dar conta da personalidade sensível dela e nós duas juntas vamos nos transformando. Tudo isso vai depender da minha abertura, de abrir mão de algumas características vinculadas ao orgulho, ao ego…e tal.

S.T. – Como foi o parto?

“ Envolvida com família e amigos em pleno sábado de festa, sol e praia! Assim foi o dia 25 de Junho o qual sentia-me mais do que nunca muito tranquila e disposta aguardando a chegada da Maitê. Caminhei bastante durante o dia com minha mãe e a noite fui passear no centro da cidade. Por volta das onze da noite fui dormir e após duas horas de sono, lá por 01:00h da manhã, acordei com uma cólica leve que até então não imaginava estar iniciando o trabalho de parto. Fui ao banheiro, mas não sanei a expectativa de uma simples dor de barriga. Tudo bem, tentei dormir novamente!

Poucos minutos depois não conseguia continuar deitada com aquelas contrações voltando mais uma vez. Fui ao banheiro novamente e nada. Bateu uma ansiedade característica da aproximação da “boa hora”. Respirei fundo! Na terceira contração, chamei meu companheiro e acordei minha mãe também para avisar da cólica. Sonolentos, pediram pra que eu acalmasse. Esperei 15 minutos e, devido à um desconhecimento, seguido de insegurança total, peguei a bolsa com meus apetrechos necessários e já fui saindo de casa pedindo que eles me acompanhassem até o hospital. Nesse momento, percebi que havia descido um pouco de sangue. Falei pra minha mãe e ela disse: É o sinal!

Fomos de carro para o hospital que fica a três quadras daqui de casa. Chegamos lá e pra variar uma enrolação pra fazer aquele bendito cadastro, enquanto eu acreditava que encontraria consolo para aquelas contrações. Minha mãe e Billi estavam o tempo todo ao meu lado. Fomos levados até o quarto e lá recebidos por uma enfermeira que parecia estar na pura inércia e com uma cara de sono tremenda. Claro, madrugada de sábado pra domingo não é hora de neném nascer né!!!! Tirei a roupa e tentei controlar as contrações ora com minha mãe, ora com Billi pois não podia ter os dois ao mesmo tempo.

Minha mãe se tornou naquele momento uma espécie de doula que me amparava espiritualmente com uma grande paciência, na tentativa de amenizar a dor. A enfermeira não aparentava domínio para amparo físico, muito menos o emocional!!! O detalhe é que só havia eu na maternidade para parir. Foi então que a Obstetra chegou, fez o toque, e demonstrava extrema frieza ao lidar com uma mulher em trabalho de parto. Neste momento em três centímetros de dilatação. Pediu que eu aguardasse e caminhasse. Caminhei por algum tempo, segurando a mão do Billi que apenas transmitia olhares profundamente afetuosos. Durante as caminhadas pelo corredor da maternidade percebi que a enfermeira estava numa maca dormindo em um dos leitos vazios e a médica também ausentou-se para um cochilo. Ou seja, se não fosse o revesamento do Billi e de minha mãe, estaria sozinha durante todo o trabalho de parto? Teria que gritar para acordá-las apenas quando o bebê estivesse coroando?

Toda aquela insensibilidade me causou tensão, não conseguia controlar de forma serena as dores das contrações, e não mais caminhar por fraqueza emocional mais do que por fraqueza física. Sentia muito frio e se não fosse ter levado o cobertor de casa não sei como seria caso dependesse do desacolhimento das enfermeiras. Em alguns momentos próximos de cinco da manhã já sem encontrar formas para diminuir as contrações, gritava chamando a médica. E sabe lá porquê ela não aparecia, apenas a enfermeira que dizia: Espere que já ela vem fazer o toque! Nessas horas acreditava que iria morrer e dizia isso a minha mãe. Mas acredito que toda aquela energia carinhosa que vinha dela e do Billi me ajudavam a aguentar a situação.

Às sete horas da manhã, estacionada nos sete centímetros de dilatação, houve troca de turno entre as médicas e a próxima, apesar da frieza e aparente brutalidade, mostrou uma certa atenção para o que estava acontecendo. Recebi o famoso “sorinho” que nada mais é que ocitocina sintética, o contrário daquela ocitocina que é lançada naturalmente junto com outros hormônios, quando nos é permitido vivenciar o parto em um ambiente acolhedor e seguro. Naquele momento pensei que seria a salvação, até perceber que as contrações se tornaram bem mais dolorosas. Pouco tempo depois, desacreditei da capacidade para um parto normal e pedi para a médica fazer cesárea, por amor. Minha mãe insistia pra que eu tivesse paciência, respirasse e que logo que Maitê nascesse todo aquele sofrimento acabaria. Tentei encontrar forças. E imersa na “partolândia”, senti um desconforto, era a médica rompendo a bolsa. Sem noção do que iria acontecer, me entreguei totalmente. Fui guiada pela minha mãe, até a sala de parto. Um diálogo acontecia para que minha mãe não entrasse na sala. Minha mãe posicionou-se e quando me dei conta a vi do meu lado tentando ser forte como uma leoa. Firme como um ser que ama profundamente, e que reage com sensibilidade diante de uma mulher parindo! Assim, de mãos dadas e em sintonia com essa presença acolhedora, na posição semi-inclinada com pernas erguidas, respirava e fazia pressão (práticas que só depois fui compreender melhor do que se trata). Outra enfermeira apertava, não muito forte, minha barriga com a “bondosa intenção” de ajudar na expulsão.

Ali, já em outro estado vibracional, sentia o quão forte era o ser que habitava nesse corpo junto daquele outro ser que estava prestes a nascer. Esse sentimento, me fez acreditar que se cheguei até ali poderia aguentar o pouco tempo que restava para ter em meus braços essa pérola negra tão querida como Maitê. Logo veio a sensação do círculo de fogo. Até aí a dor foi suportável porquê eram duas forças somente, a minha e de Maitê. Foi quando senti uma terceira força externa, ou seja a mão da obstetra pressionando as paredes/lábios vaginais para os lados pra que saísse o restante do corpinho. Parece que essa foi a maior dor que senti em todo o processo de parir. Alguns minutos de respiração profunda e Maitê nasce às 08:30h da manhã de um domingo frio e chuvoso. Esse serzinho de luz veio imediatamente para o meu peito e ficou por mais ou menos dez minutos. Era um calor tão gostoso e um cheiro tão de amor que exalava! A vontade era não desgrudar mais. Fui levada até o quarto e em pouco tempo, acredito que meia hora depois, Maitê já estava ao meu lado novamente.

Pude ficar com minha mãe e Billi por poucas horas, logo bloquearam a presença de acompanhantes, informando que aquilo não era permitido no hospital. Um grande detalhe é que nos perguntaram se tínhamos algum parentesco com o prefeito da cidade. Esse questionamento ficou na minha mente martelando por meses! Trazendo a reflexão de que se no meu caso, que apesar de toda a frieza do local e dos profissionais, pude ter o companheiro e minha mãe ao lado, como será que acontece na maioria dos casos onde as mulheres ficam sozinhas e desamparadas emocionalmente em todo o processo? Mais uma vez a energia da Maitê me dando forças, pra que eu aguentasse aquelas longas quarenta e oito horas sozinha para ser liberada do hospital. Juro que tive vontade de fugir daquele lugar. Mesmo que pudesse, não teria condições pois a região perineal estava super dolorida e não conseguia nem sentar. E quando chamava pela enfermeira solicitando ajuda por simples inexperiência ao lidar com um bebê que chora, tive a infelicidade de escutar um trecho da conversa de uma delas que resmungava pelo corredor: “Meu Deus esse bebê chora demais”. Confesso que aquilo me comoveu e não consegui segurar o choro junto com Maitê. Foram momentos terríveis e de solidão no pós-parto, não via a hora de estar no aconchego da minha casa”.

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S.T. – O que o Grupo Artemisa propõe? Como ele surgiu? Quais as maiores demandas/ dificuldades discutidas dentro das rodas de conversas do grupo?

O Artemisa tem a proposta de promover espaços de discussão sobre o parto respeitoso, uma gestação e parto digno que toda mulher merece ter e não só as que tem condições de pagar ou as que, por algum motivo, tem o despertar, a consciência e a oportunidade pra se fortalecer e escolher o parto que querem. Eu mesma não tive muita informação que tenho hoje, gostaria que alguém na minha gestação tivesse me falado o que ia acontecer, como seria exatamente, o que eu deveria dar importância de fato. Eu fiquei muito tranquila na gestação, confiante na fluidez no parto. Não parei pra pensar num parto domiciliar, pela própria ingenuidade de achar que no hospital seria tudo tranquilo, seria bem tratada. Como minha mãe trabalhou a vida toda em maternidade, ela sempre me passou essa referência. Eu sempre quis ter parto normal, e sempre achei que parir era assim e pronto. Nunca cogitei cesárea, mas me faltou um empurrãozinho pra esse despertar de que a maioria das pessoas são cruéis e não sabem lidar com o momento do nascimento, e que diante disso existe também a intuição, existe a confiança em si mesma, existe o parto caseiro e depois sim, se for preciso, existe o hospital. No final das contas, quem me deu o empurrão foi minha própria filha. E dai a história começou! A maitê nasceu no hospital de Matinhos, com a presença da minha mãe e meu companheiro. Minha maior revolta foi ter ficado sem acompanhante no pós parto, como já relatei, então a partir daí fui buscando informações, acessava a internet e buscava por relatos. Me deparei com o mundão do parto, não parou mais. Minha vida era só falar de gestação e parto com respeito.

Conheci também o termo Violência Obstétrica que até então nunca tinha ouvido falar e era exatamente o que tinha acontecido comigo, o fato de ter ficado sozinha no pós parto com a Maitê, sem meu companheiro e minha mãe foi “a tragédia”. Não aceitei essa violência, não naturalizei e corri atrás pra saber dos meus direitos, registrei minha denúncia contra o hospital e assim foi acontecendo os movimentos conversando com uma ou outra mulher na cidade.

O grupo surgiu dessa idealização minha e da parceira Ana Rochedo, cada uma trazendo consigo uma vivência bem diferente uma da outra. Nos conectamos quando a Ana estava na primeira gestação e eu recém parido a Maitê. Ela dava um ICH na UFPR Litoral sobre yoga para gestantes e eu participava já com a maitê. Depois de um tempo do parto dela, nos encontramos novamente e começamos a conversar mais sobre o assunto de parto e aí veio a luz de fazer outro ICH na universidade, sobre “Gestação Informada, Maternidade Ativa” com a parceria de outra Doula de Curitiba Helenice Vespasiano e das professoras da universidade que deram um super apoio, a Ana Elisa de Freitas e Ione Ashidamini. Era uma oficina bem movimentada, muitos estudantes de cursos diferentes participaram e tivemos um retorno bem forte, estimulante. Essa ICH durou somente um semestre. A partir daí, pensamos na possibilidade de se estender com as rodas de gestantes e oficinas nessa temática, pensando em um movimento mais profissional dessas atividades, através da Motirõ Sociedade Cooperativa, que trabalha com projetos sociais na linha da agricultura familiar. E nós entramos com uma nova linha de atuação “saúde e bem estar” mais especificamente com gestantes, que no caso é o objetivo do Artemisa.

S.T. – Das técnicas que fortalecem a relação mãe e cria, uma das que vejo ter bastante importância é a Shantala. Poderia nos falar sobre?

 Não tenho muito domínio nesses estudos da shantala, mas o pouco que sei é que a massagem que o Fredérick Leboyer aborda tanto é fundamental pro desenvolvimento saudável do ser, em vários aspectos, principalmente o emocional. O toque , falando por experiência própria, ele cria e fortalece o vínculo entre a mãe e o bebê, é um tipo de linguagem e uma conexão de muito amor que só trás benefícios pra vida. Uma prática tão simples, que só precisa de uns minutos do dia e um tanto de amor pra se realizar de forma  bem intuitiva e prazerosa. É preciso entender o momento do bebê também, nada de forçar a barra!

S.T. – Os pais são participativos nessas rodas de conversas?

Sim, se envolvem bastante nos temas abordados, perguntam ou contam suas relatos. É um momento de escuta, de partilha, de acolhimento, então cada um tem seu espaço.

S.T. – Por que é tão importante repensar e desconstruir o parto? As pessoas tem tido mais consciência sobre a construção sócio-cultural que o parto acabou tendo no decorrer dos anos? Você acha que as mulheres se sentem inseguras quanto ao parto natural?

Na verdade é urgente, o planeta já não aguenta mais tanta violência de tudo quanto é tipo. E violência no momento de nascer é o fim do mundo, sinceramente. As pessoas estão num nível de falta de sensibilidade que é inaceitável. E nós já estamos vendo as consequências dessa industrialização, institucionalização do parto e falta de interesse ou zona de conforto na criação dos filhos. Sim, porque não basta parir com respeito, tem toda uma luta pela frente com relação à criação desse ser, de apontar os caminhos que você acredita serem os melhores pra o filhx pra que ,na fase adulta, esteja firme pra aprender a lidar e lutar nas situações desse mundão. Agora se a mulher não tem nem acesso à informação, nesse caos que é a nossa vida hoje sem poder ter um minuto do dia pra dedicar-se a si, poder tomar consciência do que é a vida, do porquê de estar vivendo aqui, dos cuidados que é preciso ter quando está gestando outra pessoa, que tipo de mundo esses adultos passarão para os novos seres que estão vindo?!

As pessoas precisam ter consciência da importância do preparo para a gestação, do preparo para o parto, de entender o parto natural como um processo fisiológico do corpo da mulher. No caso das adolescentes, elas precisam ser respeitadas na sua individualidade, precisam de espaço pra ter um papo muito aberto sobre sexualidade, em casa, no bairro, nas escolas, em qualquer lugar. É importante parar de infantilizar a mulher no período da gestação, a cultura hoje é achar que mulher na gestação é uma pessoa doente. Pelo contrário, tem uma vida ali dentro, é potência gritando pra ser desenvolvida, uma bomba de hormônios sendo aflorados.

O Brasil é um país que ainda tá muito atrasado nessa cultura do parto respeitoso, domiciliar, natural, o movimento retornou mesmo, se eu não me engano, a partir dos anos 70. E bem devagar, mas bem lerdo mesmo… de lá pra cá tem agregado mais adeptos. A intenção era estabelecer mesmo a cultura hospitalocêntrica que infelizmente tomou conta e nós fomos nos distanciando cada vez mais da medicina natural no trato das enfermidades, e o parto entrou nesse rol.  Mas nesses últimos anos tem tido maior repercussão essa questão da violência obstétrica, as mulheres não estão mais conseguindo se manter caladas, estão deixando de naturalizar as violências vividas e por outro lado, cada vez mais estão surgindo espaços  que dão maior visibilidade à essas vozes.

O acesso a informação, na minha opinião, é um primeiro passo pra cultura de um parto com respeito. A mulher deve conhecer o que se passa no próprio corpo no momento da concepção, durante a gestação, no parto, no pós parto, na amamentação. Nada disso é ofertado! Nem para as mulheres que tem condições financeiras está sendo garantido esse direito, imagina nas camadas mais pobres. Só com o acesso a informação que as mulheres definitivamente vão entender, ou pelo menos terão as ferramentas pra entender, que o parto natural é fisiológico, que a dor é necessária e faz parte do processo, que a dor é um sinal do bebê avisando que o seu nascimento está pra acontecer. E nada disso é conversado!

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S.T. – Você também é Doula… Fala pra gente sobre o papel da doula na gravidez e no momento do parto.

Doula é um termo , que em grego, significa mulher que serve.  Historicamente ela está no cenário do parto, é aquela mulher, mãe, irmã, tia, amiga que está ao lado da gestante lhe dando apoio emocional, psicológico, físico e espiritual. Essa figura foi afastando-se durante o processo de institucionalização do parto, que ditava ou dita, hoje com menos força, que a mulher tem que ficar sozinha no parto, só com o médico conduzindo toda a situação e a equipe que vai auxiliar. A doula vai retornando aos poucos, mais ou menos por volta da década de 90,  e vários estudos científicos foram surgindo para fortalecer essa atuação, mostrando que o suporte de uma acompanhante de parto, trás vários benefícios como o empoderamento, encorajamento, um parto com menos complicações, com pouco ou nada de intervenções, entre outros. A doula dá informações, indica posturas que aliviam as dores na gestação e durante o trabalho de parto, tranquiliza e dá segurança à mãe, e às vezes os familiares que ficam mais nervosos com a situação. Mas a prioridade na atuação da Doula é a gestante, é o bem estar da mulher que vai parir. A doula não toma decisões pela gestante. Ela mostra as alternativas e a gestante é quem faz as escolhas. Para ser doula não é fundamental ser mãe, conheço algumas ótimas doulas que não passaram pela experiência de parir. A atuação da Doula ainda não é regulamentada como profissão, mas existe um registro como “ocupação” prevista na Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho e emprego.

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S.T. – Muitas mulheres engravidam e não sabem sobre muitos de seus direitos durante e pós gravidez. Quais seriam alguns direitos básicos que toda mulher e homem poderiam saber e daria mais segurança tanto na gestação quanto no pós parto…

A Lei do acompanhante, número 11.108/2005 por exemplo é um direito fundamental, e muuuitas mulheres ainda não sabem que isso existe. Essa lei garante à gestante a livre escolha de alguém de sua confiança para estar junto durante o trabalho de parto, parto e pós parto.

 Se a gestante trabalha fora, ela tem direito a auxílio-doença, somente em casos de gestação de alto risco, ameaça de aborto ou outra situação que exija que a gestante fiquei em repouso absoluto.

As pausas para amamentar, se a gestante trabalha em uma empresa ela pode ter os momentos, em salas adequadas e que favoreçam o acolhimento para a amamentação, que podem ser acordados com o empregador.

A licença-maternidade também é um direito previsto na Constituição e que deve ser respeitado, na minha opinião deveria ser aumentado o tempo de licença pra bem mais que 120 dias.

S.T. – Você acha que nossa sociedade dá suporte devido às mães? O que poderia ser diferente que daria mais suporte á família?

Definitivamente não, ainda tem muita coisa pra melhorar. A cultura hoje é de culpabilizar as mães por tudo. Eu começaria mudando todo o cenário de assistência materno-infantil, desde o primeiro mês de gestação até o pós parto por pelo menos um ano.

Claro que já temos alguns exemplos a serem seguidos como o Hospital Sofia Feldman em Belo Horizonte MG que é referência em humanização do parto no Brasil. Algumas casas de parto em SP, DF, RJ que também estão cumprindo seu papel na assistência ao parto. Mas ainda é muito pouco! Deveria ter um investimento maior do governo em capacitação de parteiras tradicionais, oferta de cursos com valores mais acessíveis, porque convenhamos né, um curso de parteira hoje é só pra quem tem condições financeiras. Aumentar o número de casas de parto pelo Brasil, com equipe capacitada pra atender gestantes de baixo risco (Sul, Sudeste e Centro Oeste, mas o Norte e Nordeste principalmente porque são regiões esquecidas no país) . Fomentar programas sociais com foco na assistência psicológica ás mães, principalmente mães solteiras e de baixa renda, que moram em locais de difícil acesso, enfim são infinitas as soluções, algumas já até existem, mas até a política pública, a lei ou os programas chegarem no município são anos pra serem implementadas e efetivadas, pra poder mudar a cultura local sobre o parto.

S.T. – O Grupo Artemisa é aberto à comunidade? O que é preciso para participar dos eventos?

As rodas de gestantes são gratuitas e abertas a comunidade e este ano, acontecerão toda primeira sexta do mês, na UFPR Litoral.

S.T. – Teria algum projeto que gostaria de ver sendo entrevistado por nós?

Mãejericão. Ela também trabalha na linha de saúde e bem estar mãe e bebê, promoção de vínculos afetivos através do sling (carregador de bebê), dá suporte para as mães que procuram ela…11052404_858245474247323_3373397237087668198_o

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Para saber mais sobre a Lau Ana, visite seu Facebook.

Para acompanhar o trabalho do Grupo Artemisa acesse o site e a página do Facebook.

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. Lau Ana e Grupo Artemisa por Sem território .

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