. das paisagens: Aracaju/Se .

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Aracaju, meu amor…

Eu poderia descrever suas especificidades técnicas, o dia em que foi fundada, quantos habitantes acordam dia-a-dia em seu calor. Poderia descrever alguns bairros, a diversidade entre cada um deles retratada na arquitetura de suas casas, na diferença do sotaque, no jeito de se vestir, na largura de suas ruas…

Poderia relatar sobre a sua distribuição de renda e o quanto você mudou ao longo dos anos. Quantos carros e prédios você ganhou… quanta sombra e fumaça te deram. Poderia contar causos de sua política e sua forma peculiar de se organizar e de construir as suas pontes ou viadutos coloridos. Sua cultura local que muitas vezes borbulhava em silêncio, sem o olhar atento de muitos de seus habitantes. Mas confesso que não é isso que me brilha os olhos quando te trago na memória…

É a textura da areia e do quanto eu precisava caminhar pra chegar até a água, que me vem em sensações quando recordo de suas praias. É da vastidão do seu céu com suas infinitas cores e formatos de nuvens, o cheiro do mangue, o suor escorrendo no calor da pele e do corpo quente, inclusive em suas madrugadas, aguardando a noite descansar.

Foi contigo que aprendi que o vento muda quando o sol se põe. E que é bem melhor acordar com o sol entrando pelas frestas da janela que com um despertador. Foi em ti que vivi e convivi com pessoas que até hoje compõe a minha história. Foi contigo que descobri uma de minhas melhores paisagens enquanto descansava a pele nos troncos de seus cajueiros ou me refrescava com a água de seus côcos. Que pude sentir a beleza de contrastes, as diversas sensações que cada lugar em ti me proporcionou.

Sei que não nasci em ti. Que minha infância não compõe as suas histórias. Mas mesmo sendo andarilha desde sempre é a ti que recorro quando me perguntam de onde eu sou. É que você é um caso de amor incomparável. Você em sua singularidade me mostrou a beleza de toda e qualquer vastidão. Foi contigo que aprendi a não ter medo de minhas contradições…

Sei que não te vejo há tempos e que teu nome em mim é saudade. É que foi em tuas águas que boiei sem medo de ser eu mesma. Seja em suas ondas longínquas ou em seu rio de água salgada. Seja caminhando por suas ruas sem sombras deixando qualquer lugar infinitamente distante, ou porque em teu jeito plano de ser eu senti teu sopro em minha pele enquanto pedalava pra alguns lugares. Seja porque foi teu horizonte que me mostrou pela primeira vez a minha pequenez. E desde então me senti, enfim, tendo o tamanho que me cabe.

Nosso caso de amor não foi daqueles que acontecem à primeira vista, eu sei. Tivemos que nos adaptar cada uma ao seu jeito de se inventar. Tivemos que ter longas conversas e longos silêncios pra entender que de algum jeito a gente podia rimar. Desde então, meu amor, te carrego em cada passo que dou. E te espero de corpo aberto para o nosso próximo encontro.

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. Texto e fotos por Sem território .

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