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Parecia um baile de máscaras. Os rostos, no entanto, encontravam-se mudos, talvez distorcidos. A folia trasformara-se em melancolia e isso era claro, talvez devesse ser. É certo que algumas mentes por momentos desviavam e deixavam-se aliviar pelo devaneio ou distração, mas ora ou outra retornavam à dor esperada, ansiada pelo momento.

Acontecia um velório, e pelo menos disso todos pensavam ter certeza. O que causava extrema estranheza era aquele corpo estendido ao meio, já tão frio e morto, em oposição a tudo o que era ou tinha sido. Era ela bailarina. Uma amante do corpo e da alma, com alma.

Digo isso sem poesia, mas com exatidão: bailava e vivia a bailar, desejava viver disso, e certamente o faria. Era um corpo desejado e hipnótico, agora um corpo apenas hipnótico.

Difícil era compreendê-lo, assim, estático. Como podia, se outrora era ele o primeiro a balançar e convidar ao deslize do movimento. Quem havia interrompido o som, o batuque, o suor, toda vida? Já agora faziam da tua presença um chamado ao silêncio. Era possível?

Será que a morte poderia fazer dela um momento mudo? Não se sabe, mas pareciam consentir com o ritual. Um ritual morto, que despejava em cada vivo ali presente um pedacinho de morte. A contradição parecia se afirmar: a vida realmente levava ao fim, e assim tinha de ser. Foi quando alguém que ali estava se distraiu das frases feitas e se perdeu nas suas lembranças. Lá, naquele lugar de não sei aonde, aparecia ela, em imagens coloridas e aceleradas, cheiro de vida. E ainda havia ritmo. Memórias que seguiam um compasso e faziam tremer e acordar. Era como se a bailarina tentasse lhe possuir ou mesmo convidá-lo a bailar. Ele parecia resistir, pesava a conveniência e os olhares que começavam a censurar, mas pôs tudo a rodar… TI TI BUM! TI TI TI! BUM! E eis que ele batucava o ar e o ar parecia gritar e fazia-se batucar. Olhares reviravam e a magia começava a acontecer, estava acontecendo. Foi quando ela resolveu dançar. O corpo duro e morto transformou-se em movimento e vapor. E como se fosse a última dança, dançou. E dançou, dançou, dançou… Mas ainda queria cirandar! Chamou quem ainda permanecia ao redor, queria fazer roda. Os vivos, no entanto, mais pareciam mortos, paralisados de euforia. Foi quando ela, subitamente, caiu. Despencou do ar com inacreditável leveza e recolheu-se novamente ao caixão. Agora estática e suada, provocava arrepios com aquele sutil sorriso de satisfação. E quem ainda estava presente, parecia delirar. Foi assim que a bailarina acabou enterrada, em meio a devaneios e muita agitação. E querem saber: os mortos estão mais vivos que nunca.

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. Texto e foto de capa por Helder Dantas de Santana cedidos aos Sem território .

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