Um misto de combinações do que aparentemente se apresenta como oposto ou contraditório, daí ele vai lá e desconstrói. Formas geométricas, cores, cheiro de madeira, música, discos. Uma praia entre rio e mar, histórias pesadas finalizadas com um sorriso de quem mistura força e sensibilidade. Alexandre é assim. Muita coisa numa mesma vastidão. Livro aberto cheio de páginas em branco pra escrever e desenhar… Do tipo que dá pra ficar ouvindo horas e horas e não ver a hora passar. Ele é a nossa inspiração de hoje por ser capaz de abraçar a arte como ar… Senta, que lá vem história… e das boas! 

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S.T. – Fale um pouquinho sobre você… Quem é Alexandre? O que você gosta de fazer no seu dia-a-dia?

Alexandre Gandhi, nascido no dia de São João do ano de 1983. Nasci, fui criança e brinquei muito. Pulava os muros dos terrenos baldios e andava de pés no chão. Andei por todas as ruas do meu bairro e um pouco mais além. Adolescente nadei bastante, andei de skate e me libertei muito cedo da televisão. Fui salvo pela música. Há uns 15 anos venho tocando em bandas de Hardcore, Punk e outras linhas melódicas barulhentas. O ato de desenhar sempre esteve presente na minha vida…lembranças bem longínquas disso…comecei a pintar também na adolescência…pintar “minhas viagens”…a brincadeira com as cores…há uns vinte anos meu pai é marceneiro, então foi quando também comecei a manusear madeira. Acabei meu curso em Artes Visuais para lecionar, mal pratiquei. Formei-me como artista plástico. Agora tento ser arquiteto, perto de acabar o longo caminho que é um curso de Arquitetura e Urbanismo…com quase 33 anos ainda me vejo como um livro aberto e com várias páginas em branco. 

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 Alexandre Gandhi por Alessandro Santana

 

S.T. – Porque Alexandre Gandhi? Você tem alguma ligação com a origem desse nome?

Alexandre foi uma homenagem a meu avô materno, que havia pouco tempo de falecido. Apesar de não ter conhecido, sinto ele muito presente comigo. Gandhi foi uma homenagem ao Mahatma que meu pai quis fazer. Meu irmão se chama Gibran (do libanês Kahlil, poeta). As ligações são muitas e acredito que o nome moldou muito do que eu sou. Do que serei também. Com as coisas boas e ruins que acarretam.

S.T. – O que é a arte pra você? Como ela surgiu em sua vida?

 Acho que a Arte não surge na vida de ninguém. Ela impregna a vida de todos. Uns deixam-na passar batido. Outros são tocados e a abraça. Eu a abracei. Eu tenho vagas lembranças de momentos bem longínquos eu parando pra desenhar algo criança…não criava nada, mas o ato de desenhar já era mágico, era “bom de olho”. Olhava e desenhava. Boa parte do fazer artístico é observar. Arte pra mim é ar. 

 

S.T. – Fala pra gente sobre o “AGandhi”, quando você decidiu fazer da arte o seu trabalho? O que você produz? 

 Eu sempre assinei A.Gandhi. Alexandre Gandhi é muito grande. Nos quadros que pintava, nos desenhos e nos livros que lia. Arte não é meu trabalho não. Arte é sobrevivência. Eu ando produzindo mais são os colares em madeira, procurando uma maneira de vendê-los (se for isso mesmo que quero continuar a fazer). Essa finalidade obrigatória da Arte virar mercadoria me incomoda. As vezes me vejo inibido e perdido dentro dessa situação. A maioria dos quadros que pintei foram porque eu precisava pintar, mesmo que ninguém fosse vê-los. Sempre me falam que deveria expor as minhas coisas, um monte de coisas dispersas (até mesmo dentro de meu quarto, da minha casa). Tenho um volume até considerável de coisas produzidas que estão por ai…

S.T. – Você também pinta quadros, muros, shapes… o que mais você faz? Você também os vende?

O que tá envolvendo Arte, eu estou dentro. Você mesmo participou de minha monografia, foi a única que consegui ter confiança em vir me ajudar a pintar aqueles enormes quadros da monografia. Aquele mural lá no Beco dos Cocos foi um enorme desafio. Um delicioso desafio. Repare que vida linda seria se o desafio fosse apenas colorir a cidade, né? Ah, a experiência com os shapes de skate foi maravilhosa. Um live paint no meio de um show, as artes iriam a leilão, mas acabou que a que eu pintei ao vivo não foi leiloada, fiquei pra mim, mandei outra… Mas ai pintar os shapes não é mais interessante pra mim do que talhá-los e transformá-los numa placa de xilogravura. Mesmo sem saber o que vou fazer, eu vou lá e faço, ao meu jeito. Eu estou disposto a vender qualquer coisa pelo preço certo. Algumas coisas realmente não tem preço, das coisas que produzo. Quem paga por Arte?

S.T.- O que você mais gosta no seu trabalho? Quais as maiores dificuldades?

Eu venho desenvolvendo composições com os ícones que usei na minha monografia. É o que me inquieta até hoje. E por me inquietar posso dizer que são as coisas mais legais que eu faço. Certas coisas eu ainda me pergunto porquê eu fiz, outras tenho muito certo onde quis chegar. É o meu mistério visual. A dificuldade é a negligencia com a Arte de forma geral. Eu tenho claro o que é produto, o que é Arte, infelizmente não é o caso de mesma compreensão da grande maioria da população…”nível de informação é um tanto reduzido.”

S.T. – Você cursou Artes Visuais na UFS, e agora está cursando arquitetura… Como você acha que esses dois cursos podem se relacionar?

A Arquitetura tem uma clara função a atingir. A Arte não. A Arquitetura necessita da Arte pra se fazer. A Arte existe sem a Arquitetura. A Arquitetura está dentro do grande grupo da Arte, que abarca a vida. Eu fui fazer Arquitetura pra ampliar meu conhecimento sobre a Arte. Ampliar meu campo de ação. Entretanto o Urbanismo é uma área fantástica. É o foco da vida das cidades, onde estamos fincados até o último fio de cabelo, morada criada de forma criativa (não quero aqui entrar no mérito dos agentes sócio-econômico-político que a molda) pelos onívoros homens citadinos.

 S.T. – Trabalhar com arte é solitário? Como é a sua relação com a solidão?

 Quando estiver com a Arte estarei muito bem. Não me sinto sozinho não. Relaciono-me muito bem com a solidão…com o estar sozinho. Ficar sozinho. Autossuficiência? Não.

S.T. – Você também tem grande relação com a música… Fale mais sobre como é o seu processo de criação musical, o que você tem feito e como é estar no palco tocando…

Ontem mesmo estava ouvindo uns discos bem velhos na minha vida. Assim, cds, mas aqui em casa teve cd bem cedo. Então eu era bem novo quando o cd apareceu. Ainda tenho vinil da época da minha infância. Minha relação com a música é a mais intensa possível. Não sou músico, sou viciado em música. Deus pra mim é Hermeto Pascoal. Nossa senhora é Billie Holliday. O espirito santo é o James Brown. Os 12 apóstolos são bandas de trincheira do Hardcore e Punk, Fela Kuti juntos com os pretos do Rap. 

S.T. – Como é tocar com a banda Karne Krua?

Sempre conto essa história: quando eu ouvi o Acid Eaters do Ramones eu não curti. Quando eu vi a primeira vez a Karne Krua eu não curti. Uma das coisas boas da vida é você às vezes voltar atrás nas suas opiniões, saber que podia estar equivocado. Estava totalmente equivocado com relação a esses dois pontos. Eu toco em banda desde 1998. Era novinho quando comecei. Algum tempo depois as bandas que tinha tocado já tinham acabado. Eu era fã da banda (Karne Krua) e entrar pra tocar foi fácil. Já era guitarrista em bandas antes disso. Sabia as musicas todas (depois que o som da Karne foi desvendado por mim). Tocar na banda foi continuar com a musica de forma mais próxima, tocando. Hardcore é visceral. Só se faz se for assim. É energia pura e extravasamento das emoções, das revoltas, das coisas que estavam presas na garganta. Toco na banda há mais de 10 anos. Dois discos gravados. Um monte de coisa pra lançar. Fiz a capa do último disco, que só saiu em vinil. Falava com Silvio hoje (vocalista e único membro da banda desde o inicio, há 31 anos atrás)…parece que a banda tem um ano de vida, devido ao gás que estamos.

 S.T. – O que te revolta?

A fome, a miséria, a ganância e a divisão desigual dos bens mundiais.

 S.T. – E a humanidade, que bicho é esse?

Um bicho, apenas mais um.

 

S.T. – Você trabalhou muito tempo no CENAN – Centro de Atendimento Ao Menor. Como foi a experiência de estar lá? O que você pode aprender com essa experiência?

Sabe, foram muitas experiências. A primeira é um tapa na cara dizendo que você não sabe nada do mundo. Conhecer crianças que viveram muito mais coisas que você. Conhecer pessoas que foram abandonadas no mundo, sem eira nem beira. Faz você saber que você reclama de barriga cheia. Somos eternos inconformados. Mimados inconformados. Trabalhei oito anos e aconteceu uma série de coisas que culminaram num basta. Tive que dar um basta. Estava esbagaçando a minha vida todo dia que ia trabalhar. A aprendizagem maior é que não vale a pena trabalhar pra um Estado asqueroso, vestindo uma farda suja em prol de causa nenhuma. Não ocupava um lugar de educador. Ocupava o outro lado da cela. A que reprime as vozes. Cansei disso. Não nego o que ocupei, mas precisamos voltar a traz. Não queria mais ser escravo de um salário, fazendo um serviço sujo. O Estado é sujo. De ações escusas. Precisamos mesmo é de liberdade, não de barras cruzadas de aço.

S.T. – Qual a sua cor e sua música favorita? Por quê?

 Cor, não tenho. Gosto de combinações. Preto e Amarelo é pra mim a melhor. O reluzente e o opaco. O brilho e a escuridão. Música favorita. Impossível eu dizer pra você. Gosto de discos. E de discos que abraçam uma gama muito grande da música. Do Funk ao GrindCore. Não sei nem por onde começar quando começo a pensar nisso. Posso dizer que uma mania que nunca parei de fazer desde que me conheço por gente foi comprar discos. 

S.T. – O que é felicidade pra você?

Simplicidade. Uma praia entre um rio e um mar. Acordar sem preocupações.

 S.T.: Quais suas maiores inspirações?

 O triangulo, o quadrado e o círculo. A linha, o ponto sobre o plano. A relação das cores. A ideia de volume. A ideia de profundidade. A forma.

 S.T.: O que você faz em seu dia-a-dia que te torna uma pessoa melhor?

 Tento viver em harmonia comigo mesmo. Com os outros. Tento produzir algo bacana, nem que seja pra mim mesmo. 

S.T.: O que você faz para tornar o mundo um lugar melhor? 

Acredito que cantar a revolta de muitos.

S.T.: Você indicaria alguém ou algum projeto que gostaria de ver sendo divulgado por nós?

Fui a um show recentemente que estava tendo o trabalho de um rapaz aqui da cidade, chamado Alan Brito. Muito interessante o trabalho dele. De uma delicadeza e psicodelia notáveis. 

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Para saber mais sobre o trabalho de Alexandre, informações e orçamentos envie um email para agandhiart@gmail.com.

Visite seu instagramfacebook pessoal, sua página e youtube para acompanhar o seu trabalho e suas novidades.

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Alexandre Gandhi por Sem território

Fotografia de capa por: Tanto Mar Fotografia

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