Se viajar já é algo inspirador, imagina quando você não precisa sair de casa para estar na estrada. Imagina ainda, somar essa viagem com a possibilidade de conhecer pessoas e projetos ligados à natureza, permacultura, bioconstrução, relações diversas de soma e troca… é isso que a Marina e o Felipe fazem. Cada um do seu jeitinho, eles viajam o Brasil abrindo caminho para esses encontros. Aqui, eles trazem um pouco mais sobre como se conheceram, como é viajar em casa, como fazem para manter a viagem e mais detalhes sobre o Projeto Caracol. Senta e aperta o cinto pra embarcar nessa estrada com a gente! 

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S.T. – Contem um pouquinho da história de vocês. Quem é Marina e quem é Felipe?

Difícil responder quem somos nós, o processo do autoconhecimento é longo. E pra dificultar estamos em pleno processo de transformação… Vamos citar alguns aspectos.

A Marina é sagitariana, formada em biologia e busca uma vida simples e em harmonia com a natureza. Trabalhou em diversas áreas da biologia e fora dela, mas se encontrou quando conheceu a permacultura.

O Felipe é libriano, formado em tecnologia da informação, se dedicou a esta área e a outras mas rapidamente todas deixaram de fazer sentido. Hoje se dedica a viajar experimentando a bioconstrução e a permacultura, buscando soluções simples para sua vida.

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S.T. – Como vocês se conheceram? O que cada um mais estimula no outro?

Nós nos conhecemos em 2013 através do André (primo do Felipe e amigo de longa data de Marina). Existem muitos estímulos entre nós, aqui vai um:

O Felipe é bastante calmo e paciente, enquanto a Marina é bastante ativa e agitada. Acho que um estimula o outro a ter equilíbrio em certas coisas.

S.T. – Como é estar na estrada juntos? Como era a vida de vocês antes do projeto? Como foi a pré-viagem?

Estar na estrada é um desafio constante. Nos adaptamos ao local onde estamos o tempo todo e de repente já temos que sair e nos adaptar a outro local. Não existe rotina, cada dia é um dia e buscamos aproveitá-lo intensamente. O respeito um pelo outro e pelo local onde estamos é fundamental, cada um tem seu momento de querer estar sozinho e procuramos nos integrar ao local sem interferir na sua rotina.

Antes do projeto nós já estávamos trabalhando com permacultura e bioconstrução, porém sempre indo ao local de trabalho, normalmente longe da nossa base (cidade de São Paulo) e retornando. Por isso compramos a Kombi e então resolvemos só ir e ficar pela estrada.

Antes de partir tentamos diversas formas de planejamento, da rota, dos locais que passaríamos…mas percebemos que nosso projeto é flexível e precisa estar aberto a mudanças repentinas. Viajamos de acordo com nossas demandas de trabalho e no caminho entre um e outro paramos em alguns lugares fazendo trocas.

S.T. – Pra vocês, quais as maiores ferramentas de rEvoluções que existem?

O autoconhecimento. Acreditamos que a rEvolução começa internamente, se conhecendo e se respeitando. A partir disso nossas ações com o mundo exterior tornam-se mais harmoniosas com o meio e com próximo. Para nós o autoconhecimento unido com ação consciente resultam em uma sociedade mais coerente.

S.T. – O Projeto Caracol proporciona encontros com a ideia de troca, oficinas ligadas ao tema permacultura e sustentabilidade… Contem mais detalhes do projeto pra gente, como é estar na estrada com esse projeto e como é a relação com as pessoas que vocês encontram na estrada? Como tudo isso começou e como vocês mantém o projeto?

Quando nos conhecemos já estávamos procurando novas formas de viver e nos deparamos com a permacultura e a bioconstrução. Começamos fazendo cursos e vivências nessas áreas e quando vimos já estávamos trabalhando com isso, organizando os cursos e trabalhando em obras bioconstruídas. Quando compramos a Kombi vimos a possibilidade de estender mais as viagens e conhecer mais espaços e pessoas inspiradoras. Foi assim que nasceu o Projeto Caracol. Hoje vivemos do que recebemos organizando e facilitando os cursos, oficinas e vivências além de prestar serviços como bioconstrutores.

A Kombi chega na estrada e chama muita atenção. Assim as pessoas se aproximam para saber mais do projeto, de como vivemos, o que ensinamos, o que buscamos. É comum perguntar se vendemos algo, mas por enquanto não desenvolvemos nenhum material de venda.

Estamos aprendendo muito na estrada, temos encontrado pessoas muito receptivas e acolhedoras, muitas vezes temos mais de uma opção de local para nos hospedar nas cidades por onde passamos. Estamos tendo contato com uma cultura brasileira muito rica, aprendendo formas mais simples de viver, muita abundância de recursos e alimentos, conhecendo muita gente boa e tendo o prazer de desfrutar de paisagens incríveis. Por enquanto o que mais anda nos preocupando é o preço da gasolina que não para de subir, mas temos fé na abundancia!

S.T. – Vocês acreditam na Permacultura como uma ferramenta importante de mudança na relação homem-natureza? Como ela pode promover mudanças na vida das pessoas que chegam a ter esse conhecimento? Como pensar Permacultura em uma cidade grande? O que as pessoas poderiam fazer para diminuir seus impactos no dia a dia mesmo estando em uma metrópole?

Acreditamos na Permacultura como uma ferramenta revolucionária. Vemos ela como solução para muitas crises que estão acontecendo atualmente, como a da água, dos resíduos sólidos, da alimentação cheia de veneno… Ela pode ajudar a mudar radicalmente a vida das pessoas, como foi o nosso caso, ou apenas inserir hábitos mais saudáveis e em harmonia com a natureza. Repensar os hábitos de consumo é o primeiro passo. Consumir produtos orgânicos de agricultura familiar e conhecer os produtores que te fornecem já é um ato revolucionário e totalmente possível na cidade grande. Captar água da chuva, tratar os resíduos sólidos com zona de raízes, dar carona ou andar de transporte público e bicicleta… Como dissemos, a Permacultura deve ser vista como uma ferramenta, e quando empregamos a ferramenta certa para consertar algo, fica tudo mais fácil.

Para o meio urbano existe a permacultura urbana, que foi adaptada para este estilo de vida. Ela busca soluções para ambientes pequenos, como composteira doméstica (minhocário), captação de água da chuva em mini cisterna, etc.

S.T. – Como foi ter a Kombi Home Asa branca sendo tranformada pelo programa Decora da GNT? A Kombi acabou sendo também uma escola nômade com a ideia do projeto, não é mesmo?

A reforma da Asa Branca na televisão, pelo Marcelo Rosembaum no Decora, aumentou muito a visibilidade tanto do nosso projeto como da maneira de viver. Recebemos muitas mensagens querendo saber mais a respeito, pedindo dicas de espaços para aprender permacultura, de alimentação. Foi muito legal! A Kombi é uma escola itinerante, cada local que paramos mostramos como ela funciona e como vivemos ali. A placa solar, a hortinha e o minhocário são atrações que fazem as pessoas acreditar que é real e que esse modo de vida é fácil e funcional.

S.T. – Vocês estão com um novo projeto de usar a Kombi para o Cine Kombi. Já conseguiram todo o material que precisavam? O que vocês pretendem passar e como vocês estão pensando em executar esse projeto?

Quando organizamos vivências e cursos procuramos ter um espaço para passar um filme ou documentário educativo que tenha a ver com o assunto que estamos abordando. Mas estávamos dependendo sempre da infraestrutura do local, normalmente passando na televisão. Um dia falamos com um amigo que seria muito legal ter um projetor para passarmos o filme para todos e ele sabia de uma empresa que tinha um equipamento parado e conseguiu que fizessem uma doação para o projeto. Então pensamos que seria muito legal ter uma caixa de som para poder passar em locais abertos também, em qualquer local que passássemos, levando o cinema para cidades e pessoas que não tem esse recurso. Ainda estamos procurando a caixa mais potente, mas já fizemos uma sessão usando um espaço fechado, pois utilizamos as caixinhas do computador, e foi um sucesso!

S.T. – Que dicas vocês dariam para aqueles que estão pensando em largar tudo para cair na estrada? Quais as vantagens e as desvantagens de viajar com um Motor Home?

A primeira dica é ter certeza do que quer (ou do que não quer!). Ter um foco é fundamental, senão corre o risco de desistir no primeiro desafio. Outra dica é deixar o motor do carro em bom funcionamento, para diminuir o número de paradas na estrada, porque elas acontecem de qualquer forma… Nós procuramos sempre ter um local para estacionar a Kombi de forma segura, evitando postos de gasolina ou gastos com hotéis, nessa hora a rede de contatos é de grande ajuda. E sempre levamos algum alimento e água com a gente. Já passamos perrengues de ter que gastar muito para comer mal nessas grandes redes que encontramos nas estradas. Uma das principais preocupações desde o começo do projeto é o de deixar a Kombi com a cara de um lar mesmo, assim sempre nos sentimos realmente em casa.

 
Uma das vantagens é ter uma maior liberdade, de poder estar cada hora curtindo um lugar diferente e ao mesmo tempo sem sair de casa, podemos mudar a vista da janela do nosso quarto quando quisermos.

A desvantagem é estar distante da família e amigos, mas saudade a gente mata.

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S.T. – como vocês chegam até os locais dos cursos? Como é feito o roteiro da viagem?

As vezes somos convidados para dar o curso como facilitadores, as vezes nos oferecemos de voluntários e as vezes somos participantes aprendizes de cursos também. A nossa rota é feita de acordo com as demandas de trabalhos remunerados e aproveitamos a região para vivenciar outras experiências de forma voluntária, com trocas ou como aprendizes.

S.T. – O mundo está mais colaborativo?

O mundo está super colaborativo! Na nossa experiência até o momento só temos a agradecer.

Inclusive neste momento em que estamos respondendo esta entrevista, um publicitário que conhecemos ontem nos fez uma surpresa e criou o site do Projeto Caracol. (www.projetocaracol.com.br)

S.T. – O que vocês pensam sobre a humanidade?

É verdade que a humanidade fez e ainda faz um grande mal ao planeta e a si mesmo. Mas nós seres humanos estamos nesse planeta para evoluir nossos espíritos. Estamos passando por um período de despertar, e o caminho está aberto para quem quiser embarcar nessa transformação.

S.T. – Como é o diálogo entre vocês e as palavras: natureza, tempo, estrada, lar, saudade e viagem?

Natureza é o todo, somos nós, é a unidade.

O tempo é totalmente diferente para nós agora. Somo guiados pelo nascer e pelo por do sol. Pouco olhamos o relógio, sentimos a hora.

Estrada é um caminho, foi o que escolhemos para esse momento das nossas vidas.

Lar é o local onde nos sentimos bem e acolhidos, no momento nosso lar é a Kombi.

Saudade é um sentimento que nos faz querer estar em um monte de lugar ao mesmo tempo e que nos faz pensar em voltar aos locais por onde passamos.

Viagem é aprendizado, trabalho e prazer! É o nosso viver!

S.T. – Quais suas maiores inspirações?

Observar como a natureza funciona nos inspira muito. A ave que canta, a borboleta que poliniza, a semente que brota, o pé de abacate que nos alimenta, o rio que nos banha e mata nossa sede, o som do mar, o som do silêncio, o som da Asa Branca e por aí vai, são infinitas inspirações!

  S.T. – Que projetos, ideias ou pessoas vocês gostariam de ver sendo entrevistados por nós? Por quê?

Temos conhecido muita gente bacana Brasil afora. O legal é que cada um faz uma transformAção diferente trazendo soluções simples e sustentáveis, de cunho pessoal ou comunitário. Vamos citar alguns nos Estados por onde passamos. Em Santa Catarina as meninas do curso itinerante “Jardins Comestíveis” estão mostrando que num pequeno espaço é possível plantar seu alimento orgânico e deixar o jardim lindo e funcional. Em São Paulo tem o sítio Saramandala que tem um espaço que está sendo bioconstruído com recursos de financiamento coletivo e que de forma colaborativa está fazendo muita gente tirar seus sonhos do papel. Em Minas conhecemos os estudantes do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia de Inconfidentes, que estão levando a agrofloresta para o meio acadêmico, além de fazerem na própria instituição um banco de sementes comunitário e o cadastramento e certificação participativa dos produtores familiares orgânicos. Também indicamos o Contraponto, projeto num vilarejo onde moram 25 familias chamado Extrema, em Congonhas do Norte, onde estão levando o tratamento ecológico dos efluentes através de zona de raízes e resgatando a cultura de construção com terra e empoderamento comunitário.

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Para saber mais sobre o projeto e entrar em contato com a Marina e o Felipe, visite o  sitefacebook, instagram e youtube.

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Projeto Caracol por Sem território

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