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Era um gira-sol que se cansou de girar. Resolveu e parou. Foi quando o tempo paralisou.
Pois o tempo era regido pelo gira-sol. E com o tempo deixar de passar, tudo passou a nunca mais passar.
Tudo era infinito. Infinito naquele instante que era. Passado não mais existia. Futuro, quem quisesse, escolhia.
Uma eternidade que não acabava nem começava, repousava.
Enfim, preguiça finalmente podia!
É, preguiça e gira-sol não costumavam se entender. Enquanto um queria o nunca, o outro sempre vinha vindo querer.
Preguiça desafiava e achava que gira-sol nem sabia porque tanto rodava.
Gira-sol parecia mesmo girar sem nunca parar pra pensar.
Alguns acreditavam que cego devesse ser, brilhara tanto que cegara ao nascer.
Preguiça assim também achava: cego seria ou não tanto se confundiria; tontos círculos dobraria?
Mas é que não compreendia, achava que gira-sol nunca conseguiria chegar, ficaria sempre no mesmo lugar, e sem nunca sequer descansar.
Não conseguia imaginar aonde essa vida ia levar.
Mas gira-sol girava, girava, e, com isso o tempo se movimentava e todo mundo, enfeitiçado, sentia que o tempo ia, devia, e faltava, e passava, e sumia.
Tudo se manchando de tempo, marchando à dança que ele queria.
– Mas, ei, gira-sol, quem lhe disse que lhe quero maestro da minha vida?
– Ei, gira-sol, não se cansa, não descansa, ver tudo passar sem sair da dança?
– Ah gira-sol, alforria!
Preguiça não concebia, achava que gira-sol também surdo seria.
O que preguiça não sabia era que no gira-sol influência sua tinha. Era preguiça bocejar pra gira-sol bobear.
Preguiça também jogava sua magia no ar.
Quem atento fosse, perceberia que gira-sol não dançava sempre na mesma sincronia.
Seu ritmo por vezes arrastava e havia quem jurava que o tempo de vez em quando parava.
É, tinha dia que o tempo não se decidia, não sabia se andava ou se corria.
Era gira-sol tudo sentindo, de cego se fazendo, mas a tudo se envolvendo, correndo, suando, cansando, tremendo, temendo.
Ai bocejos, ai preguiça! Corria! E o tempo ziguezague fazia.
Gira-sol acreditava que tudo-vida não mais existiria se um dia pararia.
Sentia certo orgulho no que fazia e, decerto, até prazer havia.
Não entendia preguiça, dela achava que nada-vida queria.
E então continuava seu baile, seguia seu dia, puxava sozinho a ciranda que devia.
E assim o tempo ia, sempre vinha.
Pois certo dia preguiça cansou de cansar, preguiçou de protestar e resolveu deixar-se com o tempo passar.
E nesse instante gira-sol girou tão-tão rápido, sem nenhuma preguiça tentando tentar, que tonteou, bailou com as estrelas e viu o mundo inteiro girar.
Descobriu pela primeira vez como é sentir-se girando-girado, num movimento tão atropelado quanto atrapalhado.
E, naquele breve instante, parou. Parou e sentiu todo o gosto que isso lhe trazia.
E fez tudo sentir-se fora do tempo, naquele instante mínimo que havia.
Déjà-vu, bobeira, bruxaria, o que era aquilo que todo mundo sentia?
Mas gira-sol logo acelerou. Voltou a rodar, rodopiar e tropeçar, sem nem pensar nem entender o que havia acabado de se passar.
E ficou com aquele gosto transgredido, poder deixar de ser tempo e continuar existindo,
permitir-se enfeitiçar e finalmente repousar, encostar, fazer o tempo sonhar.
Depois daquele dia, gira-sol nunca mais olhou preguiça com a mesma antipatia.
Vez em quando se distraia e até esquecia que ele tempo existia.
E havia quem dizia gira-sol apaixonando-se por preguiça, que ironia!
Disso aconteceria aquele eterno dia em que tudo deixaria de passar, podendo enfim o tempo descansar…

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. Texto por Helder Dantas de Santana cedidos ao Sem território/ foto por Sem território .

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Um comentário sobre “. o tempo da preguiça .

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