Dessas sereias que nascem em terra de café, sem mar, e se descobre parte dele quando imersa em suas águas. Canceriana, psicóloga, mulher, feminista, Jéssica materializa sensações em fotografias, observa e caminha pela cidade reconhecendo cada esquina e se reconhecendo nelas. Em nossa conversa ela traz mais detalhes sobre seus trabalhos, suas percepções sobre a cidade em que mora e sua relação com o corpo. Diz que aceitar-se é um ato revolucionário, se deslumbra com facilidade, tem a natureza, a capacidade de renascimento e de resistência em todas as formas de vida fascinando seu olhar e inspirando seu modo de viver. 

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 S.T. – Quem é Jéssica? Conta um pouquinho da sua história e do seu dia-a-dia pra gente.

Mulher, caminhando para os 31 anos, baiana de Vitória da Conquista, sudoeste do Estado da Bahia, conhecida por suas baixas temperaturas. Descobri a rotina do litoral, aos 17 anos, quando vim cursar Psicologia em Aracaju. Aqui me descobri e redescobri. Me reinventei nas minhas idas e vindas, por essa cidade louca e intensa. Recentemente descobri uma foto de um pixo em algum muro por aí que dizia: “Tudo de novo eu faria, por amor ou euforia.” . É assim que me sinto. Depois de Aracaju, morei em São Paulo, no Rio de Janeiro e, há três anos, novamente em Aracaju. Essa morada em diferentes cidades me fizeram compreender que o mundo é grande, que as possibilidades são ainda maiores e que pra quem tem tantos interesses, haja coração… pois há muita vida pela frente.

Estudei semiótica, psicanálise lacaniana, gestão em saúde pública e a fotografia, que sempre esteve comigo. Desde criança já me jogava uma idéia constante, do tipo: “e que tal isto?”. A fotografia me mostra que posso unir tudo o que sou: desenho, estética, colagens, textos, militância feminista, gente e viagens em uma coisa só. Foi uma descoberta meio óbvia, mas que precisou de um processo longo de analise de quem sou, das circunstâncias que estou e dos sonhos que tenho, para acontecer.

Canceriana, mudanças deveriam ser algo com que eu teria uma grande dificuldade. Gosto mesmo de reconhecer um lugar como “meu”, de reconhecer pessoas, comidas e paisagens. Gosto de me sentir familiarizada ao mundo a minha volta. Mas, minha trajetória tem sido cigana, meu coração sabe gostar das andanças e eu  acabo reconhecendo múltiplas familiaridades. Tenho seguido assim, caminhando, tensionando, adaptando. Todos os lugares e as situações que vivi fazem parte de quem eu sou hoje.

Sobre rotina, não tenho. Mudo tudo o tempo todo. 2016 vem forte com a idéia de concluir cada coisa e assim tem sido.

S.T. – Como é ser mulher em nossa sociedade?

Uma tarefa árdua e construtiva de resistência. É ter toda a nossa identidade posta à prova todo o tempo. É sentir que para caminhar há mais, sempre mais desafios a serem superados.

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S.T. – Você tem sido ativa em relação a algumas lutas no cenário de Aracaju. Fala pra gente sobre sua vivência nessa área. A Psicologia te auxilia no diálogo com esse trabalho? Você acredita que as pessoas estão tendo mais consciência sobre sua relação com o outro?

Sinceramente não vejo em como a Psicologia tem contribuído diretamente com a minha militância, mas ao te responder essa pergunta me vem a cabeça como todas essas coisas se fundem cada vez mais. Hoje tenho um projeto que propõe pensar como se dá a formação da identidade de mulheres brancas, negras, lésbicas, bissexuais, trans e todas as nossas peculiaridades inseridas no espaço urbano. Nesse caminho, percebo de forma bem significativa o quanto a sociedade e todas as suas normas sociais desembocam na formação do indivíduo, em sua auto-estima, nos lugares sociais que lhes é delegado e essa compreensão ela é política, é subjetiva.

S.T. – Como você explicaria o que é Feminismo para uma criança?

Acredito que existem possibilidades diversas de criar crianças inseridas numa perspectiva política de respeito, empatia e diversidade. A infantilização da potencialidade da criança de pensar criticamente é um grande problema ainda hoje. Há uma separação do que são questões do ambiente adulto e do que é do universo das crianças. A sociedade tem aí uma grande missão. O ambiente da criança é diverso e problematizar as naturalizações no espaço escolar, lúdico, midiático pode ser um  importante primeiro passo.

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S.T.  – O que é fotografia pra você? E seus projetos de fotografia? Algum projeto novo sendo pensado?

Fotografia pra mim é a materialização de sensações, demarcação de momentos e contar história através de imagens. O meu primeiro – e em curso – projeto de fotografia foi o Mulheres a partir de 50 Anos, que busca compreender o ambiente subjetivo de mulheres e suas gerações e as consequências que sofreram em sua auto imagem, na circunstância familiar, sócio-econômica e em sua sexualidade. Atualmente, tenho me dedicado bastante ao projeto ID.cidade, que trata sobre mulheres e espaço urbano, a formação de suas identidades na cidade e como a cidade tem reagido a essa interação.

S.T. – O que é a cidade? Como é trabalhar com a cidade como paisagem?

A cidade é por onde passamos, por onde buscamos familiaridades, onde nossas histórias encontram nossas lembranças. Pra mim, trabalhar a cidade como paisagem é abrir os olhos. Encontrar muitas cidades dentro de uma só.

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S.T. – Como é o diálogo entre a Fotografia, o corpo e a psicologia?

A fotografia, a psicologia e o corpo me toca de forma semelhantes, eles dialogam com as nossas emoções e com o outro.

S.T – Você também transborda em tinta, traços e cores. Como anda sua produção com desenhos?

Tenho percebido que sempre recorro ao desenho quando todas as outras ferramentas não conseguem reproduzir minhas sensações. Não sei nada sobre técnicas de desenho, me utilizo de um infinito de linhas para tentar entender e caminhar entre meu inconsciente. É um trânsito bastante profundo e que muitas vezes demoro a compreender o que está ali, sendo sinalizado.

S.T. – Você mora em Aracaju há mais de 10 anos… percebeu alguma mudança no cenário cultural de Aracaju? Como é trabalhar com arte por aí?

Uma mudança muito bonita de se ver e acompanhar. Nossa cidade tem transbordado arte, há muitas pessoas produzindo, criando, escrevendo, fotografando, tomando os espaços públicos e privados com grafite, pixo, lambe-lambe, rimas, poesia… No dia 27 de março, estive no Ensaio Aberto Especial Mês de Março com o mote “ A Luta é de todas” e foi maravilhoso. O Coletivo de Mulheres de Aracaju realizou, uma intervenção e, além de nós, participaram mulheres escritoras, ilustradoras, fotógrafas, designers. Ainda estou extasiada com o que vi.

S.T. – Qual a sua relação com o mar?

Como falei no início dessa entrevista, cresci numa Bahia sem mar, numa Bahia fria…terra do café. Me encontrei no litoral, hoje não me imagino numa cidade sem mar, tenho a sensação de que estou sempre a salvo, a qualquer sinal de confusão…corro pro mar, lá me renovo. A água é o elemento onde me sinto em maior contato comigo mesma.

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S.T. – Qual a sua relação com seu corpo e a nudez?

Me sinto muito a vontade dentro do corpo que moro, sempre me senti muito a vontade nua. Mas, passei por um longo processo de compreensão das expectativas que criei, dos padrões que são tão forçadamente impostos e do olhar do outro sobre ele. Hoje, sei que a nossa aceitação é um ato revolucionário e cada vez mais, busco fazer deste meu espaço um ambiente também político.

S.T. – Qual sua maior contradição?

Acho que quando nos propomos a desconstruir, pelo caminho descobrimos muitas contradições. Nem sei se conseguiria aqui colocar as tantas que já encontrei, mas busco superá-las sempre.

S.T. – O que te inspira? E o que te revolta?

Outras mulheres me inspiram sempre. O que me revolta é a falta de voz dada a elas nos espaços.

S.T. – Como foi a sua última gargalhada? O que mais te fascina?

Costumo dizer que me deslumbro com muita facilidade. A natureza, a capacidade de renascimento e de resistência em todas as formas de vida me fascina.

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S.T. – Você indicaria alguma pessoa, ideia ou projeto que gostaria de ver sendo entrevistado por nós? Por quê?

Sim, a poetisa Anne Souza. Nada do que eu disser aqui representará a grandiosidade dela e do trabalho que tem desempenhado nessa cidade.

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 Jéssica Dias por: Sem território.

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