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Ele não sabia rir. Não sei, não sabe, não sabia. Parecia ter nascido sem saber. Talvez fosse algum trauma de infância, medo de palhaço, vergonha de sua dentadura torta e amarelada. Talvez sufocamento nos tempos de útero, carência de oxigenação de algum endereço cerebral. Na verdade não sabia de onde vinha, ou mesmo se vinha de algum lugar. Sabia que não sabia. Simplesmente não conseguia rir.
Decerto não aprendera, não fora estimulado a isso. Sua família, é preciso dizer, não era muito dada a risos; a gargalhada era espécime raro e o sorriso um máximo denominador comum. E, não raro, mesmo os sorrisos que vinham daquela família, costumavam se apresentar em bocas fechadas, fachadas. Esboços de riso. Disfarces.
Talvez faltasse algum gene hilariante naquela constelação familiar.
há quem diga que o gene do riso se encontre no bairro das expressões,
ali no hemisfério tropical do córtex sensorioso,
sendo o Riso a esquina da rua Harmonia com a travessa do Ridículo.
era comum alguém usar o Ridículo para chegar à Harmonia
passando pelo Riso.
numa dada geração da família, os moradores da travessa do Ridículo
devem ter ridicularizado aquela rua tão-tão harmoniosa.
quem vivia na Harmonia se ofendeu
e passou a não mais visitar o Ridículo, inutilizando a esquina do Riso.

Tinham aqueles amigos que não se conformavam com sua ausência de riso. Não concebiam uma existência que nunca experimentasse rir. Então tentavam de tudo. Casualidades, mirabolâncias, piadas boas, piadas ruins, sustos, saltos e sobressaltos, truques, tiques e traques, tudo para lhe assaltar um milagroso riso desprevenido. Claro que sempre tinha aquele que tentava lhe aplicar as famigeradas cosquinhas. As cosquinhas! Será que tinha coisa mais incompreensível para ele do que as cosquinhas? Ele entendia menos as cosquinhas do que o próprio riso. Aqueles apertos inconvenientes, intrometidos e dolorosos naqueles lugares de sempre… só poderia ser piada de mau gosto mesmo. Como alguém que se ofende com o sexo antes de descobri-lo prazer.

faz carinho que eu gosto mais!

Por vezes, seu humor era facilmente confundido com ironia. E sua ironia, ahhh!, adorava aquele campo fértil de expressões comedidas.
Alguns garantiam que, estando ele alegre, ficava com cara de paisagem. Mas parecia mesmo era compensar o riso com tiques próprios de corpo. Alguns diziam que seu riso era toda vez que seu nariz se mexia. Outros juravam que ria era rebolando, chacoalhando todo o quadro do quadril. Como se o riso, desorientado, quisesse sair pelo buraquinho do cu. Talvez como um cachorro que sorri pelo rabo, entre abanos e abraços. O riso deve ser mesmo isso: alguma coisa que não mais se comporta e escapa. Certamente em parentesco com o choro.

será que consigo rir de tanto chorar?

Às vezes, ele tentava rir e se concentrava nisso. Virava exercício, escola, propósito. Criava métodos. Geralmente, quando tentava rir, assoprava. Era mesmo um desajeitado no riso. Então tentava cenicamente, ensaiava atentamente as cenas. Chegou a elaborar o que chamava de riso em apuros. E por vezes enganava até os mais apurados.

ri-SOS

Aprendeu mesmo a simular os mais diversos risos, cada um vestido de uma ocasião. Risos circunstanciais, oportunistas. Providenciais, convenientes. O problema é que riso disfarçado, quando detectado, acaba mais chateando do que contagiando. Começou a se convencer que era melhor se vestir de silêncio em vez do riso forçar. Ficar falando é que não poderia: já tinha aprendido que riso costuma vir em lugar de pausa.

shhh: não tá vendo que tô rindo?

Mas ele não era infeliz, não. Ao contrário, e no tocante oscilatório da roda-vida, considerava-se pessoa dita F E L I Z. Conseguia misturar humor com naturalidade e fazia, da seriedade, sua eterna máscara cômica.

mas ele não pára de falar sério!

Um dia começou a perceber que estava ficando cego.
E quando a cegueira pousou-lhe por completo, finalmente descobriu:
Ria pelos olhos.

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*
. Texto e fotografia de capa por Helder Dantas de Santana cedidos ao Sem território .
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2 comentários sobre “. ri-sonho .

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