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queria muito arvorecer

criar raiz num canto qualquer
florescer e quiçá frutificar
queria sua cor mudar
sua forma enrijecer
galhos amadurecer
e até ninhos acomodar

começou a terra acariciar
e adubou ela de si mesmo
plantou o pé no chão
e aprendeu a imóvel ficar
e com vento, balançar

descobriu como chuva guardar
e a chover depois de parar

passou a sombrear em luz de dia
e se vestia de noite no escurecer

crescia para cima e para baixo
dormia enquanto invernava
falava mudo, entendia mudas
assobiava ventos
espreguiçava a todo momento

era terra e ar
água corria por seu corpo
e de fogo sabia se alimentar

aprendeu a língua dos pássaros e das minhocas
assimilou a sabedoria dos horizontes
habitava o tempo naquele único lugar

sonhou ser balanço
e se comoveu com a primeira tatuagem de corpo-tronco,
rabiscado a canivete e coração

amarelou, esverdeou, amadureceu
arvoreceu

e um dia essa menina chegou
e lhe abraçou
e pediu licença para subir
e no seu cotovelo deitou

passaram a ser grandes amigos
conversavam de tudo quanto é tato
e sabiam de tudo que nada diziam

se encaixavam de tal maneira que um dia ela esqueceu de descer
e resolveu ali ficar
deixou-se incorporar
começou a se embolar
transformou-se em trepadeira no seu enroscar

e assim estão a estar
nesse mesmo palpitar
veios, veias, verdes já

e nem mais sabem se são ou foram
restando-lhes apenas a sensação plena
que é existir apenas
imersos
nesse simplesmente
estar

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