Hoje nosso conversê é com uma pessoa especial pra mim… Helder é do tipo que tem brilho nos olhos de criança e que usa desse brilho pra enquadrar o mundo de forma especial. Traz histórias através de palavras e proesias, fazendo do amor um verbo. É do tipo de pessoa vasta que não cabe apenas em um formato, então ele transborda cuspindo fogo, construindo música em instrumentos musicais, imagens e poesias visuais. É do tipo bicho do mato que se sente em casa em meio a natureza e ao som da água caindo sobre as pedras enquanto se faz rio. Permacultor, escritor, luthier, fotógrafo, artista, cozinheiro, viajante, apaixonado por música, humano… É muita coisa pra uma pessoa só. É do tipo que ensina a cada dia pelo simples fato de existir. E por sua existência ser inspiradora pra nós e nos fazer sorrir, a gente apresenta a vocês algumas proezas que essa pessoa sabe fazer. Boa leitura! Esperamos que esse diálogo possa inspirar a todos vocês!

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S.T. – Fale sobre você… quem são?

H.D. – Somos múltiplos… tem lado meu que conversa com madeira, tem lado que gosta de brincar com palavra escrita, tem lado que gosta de momento fotografado, tem lado que gosta de se pensar em viagem como movimento. No final das contas, sou pessoa querendo ser bicho, tentando dar conta dessa história de humano, ser humano…

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Foto por Sem território

S.T. – Humanidades… o que você acha sobre ela? como você vive a sua?

H.D. – Humanidade é pessoas convivendo com seus imaginários. O que dizer sobre meu imaginário? Me questiono bastante sobre qual pode ser meu sentido no mundo.

S.T. – E qual seu sentido no mundo?

H.D. – Eis a questão… não acho que haja uma única resposta. Gastamos muita energia tentando nos definir ou nos justificar. Talvez minha busca maior seja me harmonizar com a impermanência, compreendendo que somos múltiplos, contraditórios e dinâmicos. Meu sentido no mundo é sentir o mundo.

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Foto por: Helder D. Santana

S.T. – Como você acha que sentir o mundo pode ajudar a preservá- lo?

H.D. – De uma forma ou de outra, viver é um impacto ambiental, social, afetivo. Deixamos pegadas a todo momento, fazendo ou deixando de fazer. Busco refletir sobre como me relaciono com as pessoas e o planeta. A ideia é exercitar uma relação sensível com o mundo, tentar ser propositivo, tomar consciência, minimizar impactos. E aprender com os tropeços, eternos companheiros.

S.T. – O que você faz no seu dia a dia que torna o mundo um lugar melhor?

H.D. – Sou muito autocrítico e estou sempre me questionando sobre minhas ações e pensamentos. A verdade é que muitas vezes nem nos damos conta da proporção de nossos atos ou omissões. Tenho me estimulado com propostas de interação com o ambiente de forma mais consciente, como a permacultura. E isso se expande para as relações. Busco olhar as pessoas nos olhos, escutar com atenção. São mais tentativas que acertos, a vida é uma eterna tentativa. Fazer do mundo um lugar melhor tem a ver com essa busca de cuidar de si e do que te rodeia.

S.T. – O que é arte pra você?

H.D. – Arte tem a ver com exploração de sentidos. Pode ser gesto sinuoso, corte de legume, tela de aquarela, assovio. Para mim, arte tem muito mais a ver com estímulo sensorial instigante do que conceito ou disciplina acadêmica.

S.T. – Você tem um trabalho lindo com madeira, constrói violões e é também marceneiro… Não pensa em investir nesse trabalho? Como é fazer música construindo o instrumento? E o que você sentiu quando viu seu instrumento construído sendo tocado?

H.D. – Estudei luteria por pouco tempo, é um mundo vasto a explorar. Esse encontro me estimulou ao gosto de madeira na boca. Escutar alguém tocando meu primeiro violão foi como assistir um filho aprendendo a falar, emoção pura. Sim, a marcenaria está nos meu planos, é meditação ativa, me faz muito bem. Móveis, brinquedos, instrumentos musicais, estruturas, badulaques. A criação me estimula, gosto de trabalhar com o corpo.

S.T. – As pessoas se espantam ao saber que você constrói violão sem tocar violão… Fala um pouquinho sobre isso? Qual a sua relação com a música? Você tem uma música preferida? E o projeto “O escambau”?

H.D. – É verdade. Estou aprendendo alguns acordes no violão, engatinhando no instrumento, mas de fato não posso dizer que sei tocar. Construo, regulo, afino, mas não toco. O que posso dizer quanto a isso? Sou apaixonado por música e foi isso que me levou ao ofício. Talvez justamente por não ser músico, a luteria veio como alternativa possível de me aprofundar nos instrumentos musicais. Estudo sons e ritmos, pesquiso bandas de todo canto do planeta, acho fascinante como a música é universal e envolvente. Pulsação visceral. “O escambau” veio como compartilhamento e exercício sensorial: me proponho um tema e faço um programa musical de aproximadamente meia hora. Está iniciando e preciso arranjar mais tempo para tocar o projeto. Quanto a ter uma música preferida… acho que não. Como todo mundo, tenho canções que marcam determinados momentos. Então há a música que o momento preferiu. Memórias afetivas musicais.

S.T. – E você cria o mundo com poesia e imagens também, né? Porque deixou de abastecer seu blog?

H.D. – O blog foi feito em um momento em que estive escrevendo mais. Ultimamente tenho me dedicado mais a outros projetos e formatações. Tenho sido mais leitor que escritor, embora me pegue elaborando mentalmente embriões de histórias que um dia poderão nascer em prosa escrita. Sou mais de prosa que poesia. Ou proesia, como alguns preferem chamar, quando a poesia está embutida na prosa.

S.T. – Você também vende fotografias na internet, como anda sua relação com a máquina fotográfica?

H.D. – Fotografar também não tem sido foco no momento. Para venda, tenho revisitado fotografias de meu acervo pessoal. De qualquer forma, volta e meia me vejo com a máquina na mão. É um ótimo exercício de perspectiva, composição, olhar. A fotografia é um recorte de possibilidade possível para aquele instante, dentro do infinito de cada momento.

S.T. – O que te inspira? Quem são grandes inspirações pra você?

H.D. – Inspirações… várias de vários encontros: minha família, minha companheira, amigos, mato, bicho, André Abujamra, Manoel de Barros, Osquindô, Olhares, Tanto Mar, Sem Território, Karina Buhr, antropologia, Kieslowski, Murilo Rubião, Saramago, Mia Couto, Hermeto Pascoal, Calvin & Haroldo, permacultura, Hypeness, budismo, cozinha…

S.T. – Mexer o corpo, ser bicho do mato… por isso a permacultura? Ela junta os dois estímulos? Na sua opinião, que atitudes ligadas a permacultura as pessoas poderiam ter em seu cotidiano que trariam benefícios para sua comunidade?

H.D. – Meu encontro com a permacultura tem muito a ver com resgatar e cultivar essa parte de mim. Algumas das minhas lembranças mais distantes são em ambiente de mato, herança muito paterna. Meu pai nasceu em fazenda, viveu na cidade e agora voltou para a natureza. E, em boa parte da sua vida urbana, cultivava pedaços de terra afastados, chácaras, onde me dei conta da minha conexão com o natural, eterno retorno. A permacultura propõe reflexões e técnicas na interação com a natureza, entendendo-se parte dela. Minimizando impactos e respeitando ciclos. Muito do que se estuda na permacultura poderia ser aplicado nas cidades como,  por exemplo, a captação de água das chuvas e o uso de composteiras. Mas a proposta vai além da aplicação de técnicas. É importante refletirmos que pouco sabemos, como indivíduos, do impacto real de nossa ocupação urbana. Deveríamos tomar consciência, por exemplo, de como funciona o sistema de saneamento que nos é ofertado, sobre onde e como são despejados nossos resíduos, e por aí vai.

S.T. – Você está se programando ha quase um ano para viajar. Esta viagem tem a ver também com essa busca? Você pensa em usar os conhecimentos da permacultura para construir algo? Como tem sido essa pré-viagem? Algum projeto pessoal sendo construído junto com ela?

H.D. – A proposta de viajar por um longo período tem a ver com várias buscas pessoais. É uma busca existencial mesmo. O planejamento para realização da viagem gerou algumas inquietações. Por um lado, a busca por fontes de renda compatíveis com a vida nômade. Nesse sentido, nasceu o Destampados, loja virtual que vende estampas em canecas, camisetas, sacolas ecológicas, almofadas e capas de celular. Ficaremos (eu e minha companheira) responsáveis pela elaboração e divulgação das estampas, enquanto uma empresa cuidará da logística de confecção e remessa. Por outro lado, temos pesquisado como reduzir custos em viagem e isso tem muito a ver com expandir as formas de trocas, praticar escambos. Então estamos estudando possibilidades de intercâmbios, onde serviços possam se transformar em, por exemplo, lar e alimento. Nesse contexto, surgiu o projeto Rodando, que pretende mapear locais e projetos interessantes, com possibilidade de trocas. Há também as redes já existentes que pretendemos explorar, como o WWOOF – rede mundial de trocas em ambientes de produção orgânica. São sítios, fazendas, pedaços de terra que trocam força de vontade/trabalho por acomodação. Alguns tocam a terra pela permacultura e/ou agrofloresta, pretendemos imergir na prática dessas propostas.

S.T. – Você trabalha há 10 anos como funcionário público. Quem é o funcionário público e como você vê a questão do funcionamento de instituições públicas em nosso país? Conta um pouquinho sobre sua experiência pra gente?

H.D. – Sim, soma-se dez anos minha trajetória no serviço público, em diferentes insituições. O servidor público é uma figura estigmatizada, uma caricatura no imaginário das pessoas. Na verdade, como na iniciativa privada, pode-se encontrar pessoas de tudo quanto é jeito e perfil nas instituições públicas: seres acomodados, esforçados, corruptos, eficientes, displicentes, dedicados, etc. É muito sortido e amplo. O grande diferencial, que contribui para o imaginário do funcionário folgado, é que o servidor público ganha estabilidade depois de cumprir seu estágio inicial de trabalho e dificilmente perde seu emprego, mesmo que não apresente um desempenho satisfatório. Então volta e meia nos deparamos com alguns colegas acomodados e pouco dedicados, com seus salários garantidos pela estabilidade. Mas é distorcido considerar que todo servidor público seja assim, bem como qualquer preconceito é uma espécie de miopia. Sempre tentei ser propositivo nos cargos que ocupei, mas me ecoava uma sensação esvaziada de rotina gasta: muito tempo dedicado à tarefas repetitivas e pouco estimulantes. Pretendo me desligar do serviço público para me propor outros aprendizados, novos ofícios, outras configurações de trabalho.

S.T. – Qual a sua relação com a estabilidade e o que te estimula a querer mudar seu estilo de vida e conhecer o mundo se conhecendo nele?

H.D. – No meu caso pessoal, a estabilidade no serviço público gera instabilidade emocional, porque não me realizo no que faço. Não quero aqui desestimular quem deseja um cargo público, cada um sabe de si. Sei que vivemos num mundo capitalista, onde muito se fala de crise, etc e tal, mas estou me propondo refletir sobre como sobreviver no mundo de outras formas, reduzindo gastos e buscando uma maior realização pessoal.

 

S.T. – Amor, morte e solidão… Como é o seu diálogo com essas três palavras?

H.D. – Acho desafiante abordar em poucas linhas essas palavras, que mais são infinitos. Morte é eterna lembrança da impermanência. Minha mãe se foi quando eu tinha onze anos e essa experiência me reverbera de uma maneira muito especial. Remete ao amor e também à solidão. O fato é que estamos sempre relendo e ressignificando nossas memórias. Lembro de ser uma criança que brincou muito com a solidão. Ainda cultivo esse estar só, o que influencia na minha relação com o amor. Considero o amor uma palavra extremamente abstrata que manifesta-se por emoções parceiras como a gratidão, compaixão, carinho, admiração, respeito. É como dizem, amor deveria ser verbo.

S.T.: Você indicaria alguém ou algum projeto que gostaria de ver sendo divulgado por nós?

H.D. – Gosto muito dos trabalhos de Leo Leal, carinhosamente conhecido por Xuxu. Ele é ser multifacetado, faz de tudo com muito criatividade, inventividade. Grande estímulo na minha trajetória, com quem vivi projetos como o MAE – Movimento de Arte e Educação, em Brasília. Em grupo, produzimos alguns saraus, fanzine (o Mosquito!), cartazes lambe-lambe, muitos estímulos bacanas. Recomendo também trocar uma ideia com o pessoal do site Viravolta, que reúne lindamente conteúdos de viagem. E, ahh….. agradeço a conversa!

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Foto por Sem território

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Para conhecer o escambau, clique aqui: https://www.mixcloud.com/oescambau/

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Para acompanhar seu blog: http://divaneo.blogspot.com.br/

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Helder Dantas de Santana por Sem território

Foto de capa por Helder.

 

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