Pedro é do tipo que carrega uma bomba dentro de si. E se explode em palavras escritas, faladas, musicadas… Palavras que entram no ouvido da gente e reverberam por toda entrelinha que existe em cada um. Pedro rima coragem e amor. Poesia e revoluções. Pra saber mais sobre ele, conversamos um pouquinho, trocamos figuras e brincamos com suas palavras como quem caminha junto acreditando na poesia. Na esperança que essa bomba exploda, com vocês, Pedro Bomba.

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S.T. – Fale um pouquinho sobre você… Quem é Pedro? Como é o seu dia-a-dia?

P. – Bom, é sempre difícil falar da gente. Eu sou uma pessoa como as outras. Quando se fala no dia-a-dia, lembro das segundas. De como a vida começa na segunda-feira. Mesmo que a gente nem trabalhe na segunda, mas a consciência vai. Então não tem mistério, a água de luz, a conta da energia, as compras, o aluguel fazem parte da minha vida e de milhares de pessoas.

 

Pedro por Bruna Noveli

Pedro por Bruna Noveli

S.T. – De onde vem essa bomba que você carrega aí dentro?

P. – Vem dos olhos e ouvidos que carrego, observadores dos detalhes da vida. A bomba é um conjunto de metáforas, de sensações. Cada um carrega uma bomba dentro de si. E a bomba nesse sentido, é o conjunto de coisas guardadas dentro da gente, principalmente aquelas que guardamos forçadamente.

S.T. – O que é poesia pra você? Você acredita que a poesia seja uma linguagem acessível a todos? Como é se comunicar através dela? Na sua opinião, o que a poesia pode fazer pelo mundo?

P. – É o ato de dar de comer pra alguém.

Sim. Quando você me faz essa pergunta eu lembro de Patativa do Assaré, dos Cordelistas, dos poetas de improviso. Tem gente que não sabe ler nem escrever, mas faz poesia como ninguém. O cabra cria a poesia na hora, sem papel nem caneta. E a poesia sai organizada pela boca do analfabeto. Então eu acredito na poesia.

 

S.T. – O que é arte?

P. – É a mesma teimosia quando a gente é pequeno e mainha fala “menino deixe de arte, você vai cair”. Aí quando a gente cresce a gente cai na arte.


S.T. – Você diz que “a coragem quando se junta com o amor é o que há de mais revolucionário”… quais seriam outras revoluções?

P. – Devem existir milhares. Mas quando digo Amor-Coragem estou pensando no mundo, principalmente. Pensando nas contradições da vida, nos problemas sociais, nas resistências, nas repressões. É uma invenção de pontes entre a vida macro com a vida micro.  Amor Coragem é o constante exercício de desconstrução. E eu falo de tudo. Não só de relacionamentos. Quando eu falo “ essa ideia de propriedade vai deixar de existir”, eu estou me referindo a propriedade privada no seu sentido concreto. Com cercas e latifúndios. Estou falando da questão agrária e indígena. E claro, a propriedade privada vai se reproduzir também nas relações humanas.  Amor Coragem não é o fim. É o caminho. É o que não está escrito, é o que ainda está por vir, o que está em transformação.

 

S.T. – “Coragem, amor, coragem”… afinal o que é amor pra você?

P. – É a comida no ato de dar de comer pra alguém.

 PEDRO BOMBA E SEM TERRITORIO 03

S.T. – Como é o seu processo de criação? 

P. – É um processo de parto. Eu vou ouvindo as pessoas, as histórias contadas, as coisas que vejo, que vivencio. Essas ideias vão se cruzando na cabeça até que vão se formando na minha barriga, nas vísceras, até a hora que inicia o parto no leito do papel.

 

S.T. – Quem é Pedro entre quatro paredes?

P. – Alguém preso demais.

 PEDRO BOMBA E SEM TERRITORIO 06

S.T. – Quais são as suas maiores inspirações? Quais autores te inspiram?

P . – A rua. O povo. As pessoas. Manoel de Barros, Graciliano Ramos, Marcelino Freire, Débora Arruda, Luna Vitrolira, Allan Jonnes, Gleison Nascimento, Nivea Sabino, Angélica Freitas, Conceição Evaristo, Chico César, Celso Borges, Marcella Almeida, Dead Fish, meu pai Carlinho,  e vários outros poetas, escritores, bandas e músicas.

S.T. – E a rua… que lugar é esse?

P. – Acho que João do Rio definiu bem sobre as ruas e suas almas. Ele dizia “ A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária. A mais socialista, a mais niveladora das obras humanas” eu acredito nisso. Acredito na rua e nos seus abraços.

Pedro por Fernanda correia

Pedro por Fernando Correia

S.T. – Qual sua relação com o teatro? Fala pra gente sobre “Na Quadrada Triste de Santa Esquecida”… E com a música? Qual sua relação com o ZONS?

P. – A relação com teatro sempre permeou meu trabalho, principalmente o teatro popular produzido e exercido com movimentos sociais, ocupações de terra, greves e escolas. Não sou ator de teatro, mas a teatralidade sempre esteve presente. Com 15 anos, comecei a cantar numa banda de hardcore, a Rótulo. Foram 10 anos cantando e escrevendo. Em 2010, gravamos o disco A luta, onde assino as letras das 14 faixas. Não sei de onde vem essa força, mas nos shows eu pulava, dançava, rebolava. Em 2011, a banda deu um tempo e eu mergulhei fundo na literatura percorrendo saraus e movimentos literários.  Durante 2015, participei de saraus em várias cidades, slam (campeonato de poesia), festivais e projetos. Mas finalizei o ano querendo mais. Sentia a necessidade de mexer nas vísceras da poesia, queria ver a poesia dançando, se vestindo, se misturando, se confundido.

Foi aí que virei o ano de 2016 com a cabeça inquieta (só sempre). A partir da minha vivência e trabalho como jornalista, criei a história “ Na quadrada triste de Santa Esquecida”,  que conta a história de vida de duas mulheres artesãs que vivem em Santa Esquecida, litoral norte de Sergipe. A vida delas é marcada pela negação dos direitos básicos. A situação da comunidade piora com a chegada de um monstro.

A minha ideia foi criar uma história que envolvesse a fantasia, o encantado, a ficção. Apesar da história ser baseada na vida de duas mulheres que vivem no município de Pirambu, o espetáculo retrata a realidade de diversas comunidades ribeirinhas e os problemas enfrentados com a especulação imobiliária.

Nesse sentido, eu comecei a escrever o roteiro da história e no processo, vieram canções, melodias e arranjos. Gravei as ideias. Foi quando eu percebi que a poesia estava transbordando por outras línguas.  Convidei  Romulo Sandes (bateria) , Erik Frog (guitarra) e Roque Souza (baixo) pra fazer parte do corpo musical da peça. E esse processo de produção das músicas das personagens, dos momentos das cenas foi incrível. É bom frisar que os três músicos são da formação original da Rótulo. Então isso foi muito especial. Lançar um projeto e ao mesmo tempo retornar aos palcos com esses amigos que aprendi e aprendo muito foi mágico.

A Santa Esquecida também nos trouxe o trabalho do ator Gladson Galego que foi de fundamental importância na construção do texto, figurino e cenas. Galego é de Aracaju, mas morou mais de 10 anos em João Pessoa onde desenvolveu maior parte de seu trabalho como ator. Conheci ele em João Pessoa, vários amigos diziam que eu precisava conhecer ele e diziam a mesma coisa pra ele sobre mim. Em novembro, estive em João Pessoa e nos conhecemos. Logo depois ele voltou à Aracaju e está morando por aqui. Então a Santa Esquecida nos permitiu encontros e reencontros.

Montamos o espetáculo e fizemos a estreia no Festival Zons. Foi muito emocionante e lindo. Nós gostamos muito do resultado e a sensação é que um caminho se abriu. Queremos continuar a caminhada durante esse ano. A ideia é fazermos uma apresentação aberta em Aracaju e depois levarmos o espetáculo para outras cidades.

O Zons é um festival faísca. Serve pra faiscar um fogo maior. Não é a primeira vez que apresento no Zons. O festival sempre confiou muito no meu trabalho. Já fiz apresentações com o Barulho do Barulho e Sandyalê nas edições do Zons na Árvore e Zons pela chapada. Essa apresentação foi inédita, ou seja, ninguém sabia o que iria ver. Nem a organização do Festival. Mas acho que todo mundo gostou, saiu do festival com aquela história na cabeça.

Como diz o texto do espetáculo “ Essa história não tem fim, ninguém sabe por onde sai, uma vez entrada nela, ninguém fica só vai”.

 

Pedro por Fernando Correia

Pedro por Fernando Correia

S.T. – Você acha que a poesia falada em palco ou em vídeo, está tendo mais visibilidade que a poesia escrita? Como você se sente ao recitar poesias com um microfone na mão?

P. – Me sinto como se estivesse recitando poesia com um microfone na mão e só a outra mão fica livre pra eu mexer enquanto falo. Recitar poesia é uma das coisas mais incríveis que existem. Gosto da contação de estória. A gente tem essas manias de contar estórias, de aumentar causos, de se levantar da cadeira pra encenar exatamente como foi que aconteceu. Isso me interessa. A poesia oral me interessa muito. A possibilidade de contar e compartilhar poesia com quem sabe ler e com quem não sabe é de muito valor. Mas a poesia falada não substitui a escrita. Acredito que é um convite tático pra literatura. Pra provocar mais leitores. Quando falo que a poesia oral permite pessoas que não sabem ler ter acesso a poesia, não estou supervalorizando a poesia falada, mas sim apontando um problema social concreto que é o analfabetismo. Não é pra amenizar o problema, mas pra escancarar.

 

S.T. – Como foi lançar o “Correspoemas”? Conta pra gente sobre seu livro que será lancado neste semestre…

P. – O Correspoemas foi um material multi-linguagem que lancei em 2015 em parceria com o Designer Gráfico João Henrique. O material consiste em cartões postais com a poesia escrita e um dvd com musicopoesias, videopoesias e cartazes. Eu quis reunir uma parte do trabalho que venho desenvolvendo. A ideia da gente era juntar todas as quatros linguagens e compartilhar com as pessoas. O material foi idealizado pra a tour que fizemos em São Paulo e Belo Horizonte. Lancei o Correspoemas no Itaú Cultural, Sarau da Cooperifa, Sarau Comum e Slam Clube da Luta.  Criamos o causo da greve das cartas. Houve uma greve em que as cartas se recusavam a viajar sozinhas sem seus destinatários e por isso nós estávamos levando até as pessoas aqueles Correspoemas.

Esse primeiro semestre pretendo lançar meu livro, que ainda não tem nome, mas reunirá as poesias produzidas nestes dois últimos anos. Também teremos o trabalho de três artistas que ilustraram poesias no livros. Por enquanto é surpresa, mas assim que estiver pronto volto aqui pra lançar o livro.

S.T. – Qual a sua relação com as palavras solidão, liberdade, morte, humanidade e saudade?

P. – A liberdade é saudade do futuro
a solidão é a morte viva
e a humanidade é a liberdade dançando com a solidão.

 

S.T. – Teria algum projeto, pessoa ou ideia que você gostaria de ver sendo divulgado por nós? Por quê? 

P. – Tem poetas e artistas que citei aqui que tem trabalhos valiosos. Gladson Galego com o trabalho no teatro e no cinema. Débora Arruda na literatura… João Henrique no Design Gráfico, Roque Sousa que tem um trabalho na música incrível com lindas composições… São meus contemporâneos e pessoas fundamentais que me inspiram diariamente.

PEDRO BOMBA E SEM TERRITORIO 05

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Para conhecer e acompanhar seu trabalho visite: 

Site: soundclound.com/pedrobombapoesia

Facebook:  https://www.facebook.com/pedro.alves.58511

Instagram: @pedrobombapoesia

Youtube: Pedro Bomba

 

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Pedro Bomba por Sem território.

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