. entrevista com Christine Gabler – Atma Design .

 

Hoje, o Sem território conversa com Christine. Chris é mulher que voa. Gosta de olhar o horizonte das nuvens. Tem um olhar sensível e  atento de águia e o sorriso doce e leve de libélula. É uma de nossas parcerias com o “Atma Design”, trazendo nosso pássaro do sem território pronto pra voar junto com ela. Buscando olhar o horizonte por outro ângulo, a gente foi dialogar com ela e mostrar um pouquinho desse trabalho inspirador que ela faz.

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S.T. – Quem é Chris? Como são os seus dias?

C. – Chris é inquieta, rebelde, escorpiana, curiosa. Fotógrafa por vocação e publicitária de formação, está estudando arquitetura, seu sonho desde criança. É gaucha e ama o Rio Grande do Sul e não vive sem chimarrão. Morou em Floripa por 10 anos, e deixou Floripa há 1 ano para viver um amor.

Gosta de voar de planador, de natureza, de mar, mato e cachoeira, gosta de andar descalça e é loucamente apaixonada pelas irmãs Lauren e Gabriela. Quando a vida fica muito atribulada, ela pára, medita e necessita da natureza para recarregar as energias. Hoje tem o projeto Atma Design, que desenvolve marcas e material gráficos, ama arte e tudo que vem dela. Seus dias tem yoga, vedanta, leitura, meditação, arte, design e agora muitos projetos de arquitetura.

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Chris, fotografada por Sérgio.


S.T. – Como é estar no céu? Conta essa história pra gente?

C.– Meu pai e meu avô eram pilotos e entusiastas do voo a vela (planador), cresci no Aeroclube de Palmeira das Missões, e desde meus 3 meses de vida vivi a vida de campeonatos que meu pai disputava pelo Brasil. Com 13 anos comecei a voar, não consegui solar e terminar o curso pois comecei a faculdade de comunicação muito cedo, mas continuei sempre acompanhando as competições como equipe do meu pai. 

Quando meu pai morreu em 2010, me distanciei naturalmente do voo a vela, fiquei 4 anos longos distante deste mundo e sofrendo muito. Todos os dias antes de dormir pedia para voltar ao mundo do Voo a Vela, voltar a estar em campeonatos, na época até me ofereci para Federação (Brasileira de Voo a Vela) para trabalhar nos eventos esportivos, sem sucesso. De tanto que rezei, fui atendida, mas não do modo que esperava, foi atráves do Sérgio (meu namorado) que surgiu na minha vida como uma benção, já nos conhecíamos de outros campeonatos…

 Além de trazer muito amor e muito sentido pra minha vida, juntos estamos vivendo uma vida de Voo a Vela, voar é a nossa vida e o nosso caminho.

Voar de planador é inspirador e pra mim, talvez seja difícil de explicar, mas é como se toda essa função estivesse no meu DNA, a sensação que tenho é que quando estou num aeroclube com planadores estou conectada na minha essência e tudo está em perfeita ordem.

S.T. – O  que é arte pra você? Qual a sua relação com ela?

C. – A arte está em tudo, um exemplo é uma grade de ferro. A arte é isso, é transformar algo que basicamente são feitos com barras retas em algo lindo de se ver e contemplar.

João Pessoa 318

Grade por Christine Gabler

S.T. – Fala pra gente sobre o “Atma design”? Porque do nome? Como é o seu processo de criação?

C. – Atma é a natureza imutável do EU. Esse projeto é uma idéia de aliar meu trabalho como designer gráfico com o Yoga, pois fui responsável pelo projeto gráfico e administração dos Cadernos de Yoga por 7 anos.

O processo de criação não é sempre equânime, há dias que preciso correr no Parque, outros meditar, outros simplesmente esquecer o processo e quando volto as coisas fluem.

No processo das marcas ou projetos, principalmente ligadas ao Yoga, tenho feito japa (meditação com uma espécie de terço) com mantras específicos. Exemplo o Sham Yoga do amigo Cauê, Sham é o bija mantra de Shiva, e numa segunda feira, dia de Shiva iniciei uma semana com mantras a Shiva, além de me fortificar o processo ficou tão leve.

S.T. – Quais  os maiores desafios que o teu trabalho te proporciona?

C.– Acredito que pra todos que trabalham com criação é o prazo, há semanas que as coisas não fluem, e não me sinto segura em apresentar e não dou o trabalho como acabado. Criar com clientes que já vem com a ideia e só desejam o trabalho para executar, sem criar também é um desafio.


S.T. – O que te inspira?

C.– O mar me inspira, olhar pro mar acalma o coração, sentir os pés na areia.


S.T. – Você demonstra ter seu pai como grande fonte de inspiração… Conta um pouco sobre essa relação…

C.– Além de ser um grande pai, ele foi uma grande pessoa, todos que o conheceram admiram a integridade e honestidade dele. Isso são os meus valores pra vida, ele foi meu exemplo de pai e de herói que ganhava campeonatos, troféus e batia muitos records, quem viu ele voando sempre comenta: teu pai foi único, isso enche meu coração. 

Ainda foi meu instrutor, me ensinou a voar e tínhamos uma grande afinidade. Era nítido ver como ele se realizava voando e se realizava vendo as 3 filhas com ele no aeroclube o apoiando.

S.T. – Como você lida com a saudade? E com a morte?

C.– Tem um ditado, o que eu faço com a saudade? Tem dia que faço besteira, tem dia que choro e tem dia que faço brigadeiro. É assim, cada dia é um dia. 

A morte é algo que como escopiana me acompanha desde meus 14 quando perdi minha avó Materna pro Alzheimer, depois meu avô paterno, tios, e por último meu avô e meu pai.

Meu avô paterno o Gabler faleceu em 26 de setembro (de 2010), e eu estava firme e forte no hospital acompanhando seus últimos momentos munida de um livro muito especial chamado Luto e o Ritual Védico (a venda no vidyamandir), lia o livro da saleta de fora da UTI e ia me fortalecendo pros momentos finais do meu Opa. Foi lindo, quando ele se foi eu eu estava forte apoiei meu pai e meus primos em Floripa. Mal sabia eu a peça que a vida iria pregar.  Os ritos de passagem do meu Opa Gabler foram em Palmeira das Missões onde nasci e quando cheguei na minha cidade com meu pai,  minha mãe organizou o velório no aeroclube e ela vendo os terrenos no cemitério e dei a ideia de comprar dois terrenos na esperança de plantar uma arvore no terreno a mais.

Pois bem, 14 de outubro de 2010, 18 dias depois, meu pai as 21h teve um infarto fulminante, morreu dormindo no sofá da sala. Esse dia começou estranho acordei de um sonho que iria ter reprise do velório do meu avô, sai da cama com a sensação de morte e achava que era pelo meu avô ter ido a poucos dias. A noite quando o telefone tocou, já sabia que meu pai havia desencarnado.
E aí não teve Chris tranqüila, nem centrada ou decidida e o livro não fez sentido nenhum.
Não teve tempo de ultima palavra, de despedir, de dizer que amava, nada. Foi um estalar de dedos e meu pai deixou de existir. E o terreno a mais comprado no dia 27 de setembro foi usado para sepultar meu pai.

O tempo acalma um pouco a dor e traz a serenidade que precisamos é só o tempo. Tem dias que eu sinto meu pai bem distante, outros muito próximos. Criamos um laço com as libélulas. Queria ter feito uma tatuagem de planador, e meu pai sabendo que nunca me controlaria com as tatuagens (mesmo sendo contra), ele dizia que planador iria ficar muito masculino. Depois que ele morreu, nas gavetas da mesa dele no aeroclube achei uma pagina de uma revista alemã com um planador chamado Libelle e no adesivo de libélula da cauda do planador ele escreveu tatuagem Chris com aquela letrinha de forma linda que ele tinha. Tatuei 3 libelulas representando cada uma das filhas, as 3 Wolfetes como o pessoal do voo a vela nos chama; Assim cada vez que vejo uma libélula lembro dele e da nossa conexão.


S.T. – E o amor? Que palavra é essa?

C. – Por muito tempo fiquei descrente do amor, um dos processos do luto do meu pai foi achar que eu não poderia mais ser feliz, que não tinha como ser feliz sem a base da sua vida por perto. Foram tempos difíceis.

 Depois passei a achar o amor num relacionamento algo utópico. Até descobrir que eu sempre tive uma pessoa que me amou e me acompanhou por 7 anos. E quando nos vimos os dois sabíamos que éramos um pro outro. E assim desde outubro de 2014 posso dizer que voltei a ter amor na minha vida. O Sergio chegou e com ele tantas coisas foram se acomodando dentro de mim. Parece que tudo ficou no seu devido lugar e tudo passou a ter sentido, ele se dá muito bem com as minhas irmãs, as vezes ele liga só pra dizer que tem saudade delas, um carinho tão lindo, ele gosta muito do Rio Grande do Sul, então com o nosso relacionamento estou muito mais próxima das minhas irmãs (apesar da distancia física que aumentou muito).

O amor une, e é isso que estou vivendo, uma união muito maior com os meus amores, minhas irmãs, meu estado, meu esporte e com o Sérgio.


S.T. – Como você se sente quando fotografa? O que é a fotografia pra você?

C. – Sempre digo que voar e fotografar está no sangue. Também sempre digo que tive 4 avós incríveis, um mais incrível que o outro. Com meus avós maternos aprendi a fotografar e viver a fotografia. Minha Oma Silve tinha um estúdio fotográfico e ela documentou a historia da cidade, já meu Opa Sérgio era jornalista e fotografo. Meu primeiro trabalho foi aos 7 anos de idade ajudar meu avô no laboratorio a controlar o tempo das fotos no revelador e fixador, e depois lavar e pendurar as fotos ou fotolitos, eu era muito bem remunerada com balas banzé ou soft. Ir pro laboratório era mágico, um papel branco numa bandeja de revelador e 1 minuto e tinha uma foto ali!? Incrível! Se eu fecho os olhos ainda sinto o cheiro dos químicos.

Já com 10 anos ganhei a primeira reflex de cristal da minha avô e assim eu fotografava e eu mesma revelava minhas fotos! Vivi uma fotografia romântica com meus avós, eles foram incríveis e dois grandes heróis, agradeço até hoje quando vejo minha Oma Silve, foi você que me ensinou tudo que eu sei, e ela sabe muito! Hoje fotografar é mostrar pro mundo o meu ponto de vista sobre as coisas, gosto muito de paisagens, e sou apaixonada pelo por do sol do Rio Grande do Sul. Fotografia é meditação, é contemplação.

Opa* Avo em alemão

Oma* Avó em alemão.

S.T. – Pra você, de que forma a arquitetura pode influenciar na construção do mundo?

C. – A arquitetura dialoga com o todo, pois você pode criar e modificar espaços e dar a ele vários sentidos, porque arquitetura é concepção de vida e de mundo. 

Em todos os momentos estamos vivendo a arquitetura.  O trajeto da sua cama pro banheiro da sua casa foi um arquiteto que decidiu qual o caminho que você iria fazer. Assim como do quarto pra sala.

Conheço um arquiteto em Sergipe, o Ricardo Nunes, que desenvolveu casas populares de bambu, ele estudou na Colômbia, o projeto se fosse implantado por alguma prefeitura, daria conforto com preços baixos e gerando uma obra limpa.


S.T – Como é o diálogo entre você, a arquitetura, o design e a arte?

C. – A arquitetura me acompanha desde criança, sempre disse que seria arquiteta, desenhava as casas que achava mais bonitas da cidade, tem uma de tijolo a vista na minha cidade que é incrível, projeto de uma amiga a Monika Grond, e eu cruzava na frente dela só pra admira-la.

 Com 16 anos passei no vestibular pra Publicidade e Propaganda e com toda a bagagem de mãe e avô jornalistas, avó fotografa, fez tanto sentido que achei que a Arquitetura não era pra essa vida.

Hoje com 30 anos formada em publicidade e tendo estudado e vivido nos últimos anos cinema, arte, fotografia e agora estudante de arquitetura vejo como tudo isso me dá uma bagagem pra lidar e fazer os links com dada uma dessas áreas. A arte é sempre a base pra ligar todas elas.

S.T. – Qual sua relação com yoga?

C. – O Yoga apareceu na minha vida em 2006, mas realmente passei a viver uma vida de Yoga em 2008 quando assumi toda a parte administrativa, projeto gráfico e também de certa forma uma co-editoria dos Cadernos de Yoga, um projeto que começou em Floripa com grandes nomes do Yoga.

Através dos Cadernos conheci o Pedro Kupfer e a Ângela Sundari e também minha mestra Gloria Arieira. O Pedro e a Ângela são dois exemplos de vida de Yoga.
Eu trato os Cadernos como uma entidade, eles já tem vida própria, paramos de editar em 2014, mas eles seguem sendo comercializados, contemplados e levando conhecimento.

Devo tudo que sei sobre Yoga aos Cadernos de Yoga. Hoje mantenho uma série fixa de ásanas e tenho praticado com muito mais freqüência do que quando trabalhava com os Cadernos.

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S.T. – O  que vc faz em seu dia-a-dia pra tornar o mundo melhor?

C. – São pequenas ações que podemos tomar todos os dias, Sergio e eu juntamos dois sacos imensos de lixo numa praia em Ubatuba, de tampinha de garrafa a pote de iogurte. A praia era deserta e todos esses plásticos eram levados pela água da chuva de cima da encosta onde está a rodovia.

 Aquilo nos deixou perplexos, e tomamos uma decisão, na nossa casa, reduzir o consumo de plástico, desde o iogurte, a embalagens com muitos plásticos, então demos prioridades para iogurte de vidro, leite de vidro, pagamos mais caro, sim, mas é o que podemos fazer, porque só colocar a embalagem no lixo reciclado não é o fim do ciclo. Também sempre vemos se a embalagem se for plástica se ela é que simples de ser reciclada. Essa é a nossa ação desde 2015 e pretendo levar pra sempre, reduzir embalagens!


S.T. – E pra se tornar uma pessoa melhor?

C. – Autoconhecimento é a palavra chave. E ele pode vir de vários meios, desde uma psicoterapia a estudo de vedanta ou astrologia. Acredito que a minha base é o estudo constante de Vedanta com os CDs da professora Gloria Arieira, entender quem nós somos é o caminho.

S.T. – Você indicaria algum projeto, pessoa ou ideia que seja inspirador e que gostaria de ver sendo divulgado por nós?

 – Letícia Weigert que largou a vida de publicitária em Porto Alegre pra plantar morangos orgânicos e ela luta por um mundo mais orgânico.

– A artista plástica Giovanna Venturini, que hoje mora na França com dois filhos e tem um lindo trabalho com mandalas.

– Marina Temer, terapeuta ayurvédica, esposa de artista plástico e trocou Floripa por SP recentemente.

– Ana Claudia Lopes a Kaká, é prof de Ashtanga Yoga, é apaixonada pela prática, pelo seu mestre, trabalha com empenho e seriedade, ama animais suas plantas.

-Alecrim Correia é chef de cozinha, yogi, pai.

– Ana Lucia Fischer é prof de yoga, terapeuta e tem um trabalho lindo com mantras e um novo projeto (que será lançado em breve).

 

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Youtube: nasnuvens

 

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Christine Gabler por Sem território.

 

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