Helena é do tipo que compõe a paisagens do seu mundo com as palavras que sente. Conta suas histórias e histórias dos outros, como quem se despe em cada letra pra tentar abraçar o silêncio. E Helena grita… e Helena mostra… Não esconde a própria vida, como quem se olha profundamente no espelho. Palavras quentes, ácidas… como quem vomita vísceras. Mostra os membros desnudados sendo nua por inteiro. Tem peito aberto de quem corre como cavalo e se joga de cabeça em seus abismos… assim, como uma boa sagitariana sabe fazer. E tentando descobrir quem é Helena, por trás de suas entrelinhas, que a gente foi conversar um pouquinho com ela e aproveitamos pra brincar com suas palavras como quem soma e rima.

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S.T. – Fale um pouquinho sobre você… Quem é Helena? Como é o seu dia-a-dia

H. – Bom, Helena é uma sagitariana mineira, que encontra nas palavras seu maior refúgio. Meu dia-a-dia sempre foi muito inconstante, tem épocas de minha vida onde trabalho muito, cuido da casa, etc… E tem momentos onde passo o dia inteiro trancada no quarto, ouvindo música, fumando, escrevendo, me recompondo. Sou uma pessoa que busca sempre sabedoria, tento fortalecer meu lado espiritual, tento me conectar com a natureza e serenidade, para que eu possa enfrentar o mundo.

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S.T. – Em sua página você expôs sua intimidade, sua depressão, seu transtorno obsessivo compulsivo, sua ansiedade, suas histórias e conflitos… gostaria de falar mais sobre isso?

H. – Esse é um assunto que algum tempo atrás era quase impossível de falar sobre. Mas hoje em dia tiro de letra. Eu desenvolvi a depressão aos 7 anos de idade, tive uma adolescência difícil devido aos meus conflitos internos. Fiz acompanhamento psicológico durante um tempo, mas eu sentia que aquilo não estava me ajudando em nada. Busquei na literatura a cura que eu tanto sonhava. E eu consegui. Escrever é um desabafo diário, é uma purificação da alma.

S.T. – Você tem textos escritos que nunca mostrou pra ninguém? Se expressa de outra maneira além da escrita?

H – Bom, tenho alguns escritos que não publiquei na página, por serem muito pessoais. Amores passados, saudades proibidas, acho que certas palavras devem ser mantidas em segredo. Mas 99% dos meus sentimentos estão nos poemas que tenho postado ao longo desses 3 anos. Antigamente eu desenhava muito, pintava também, mas perdi a prática. Hoje em dia minha única forma de expressão é a poesia mesmo.

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S.T. – Como é ser mulher em nossa sociedade? E ser feminista? Na sua opinião as mulheres estão tendo uma outra consciência em relação a seus direitos e a forma como lidam com sua existência no mundo? E os homens?

H. – Ser mulher em nossa sociedade é correr um risco constante. A mulher não tem direito de sair na rua com determinada roupa ou maquiagem, ela não tem direito de terminar um relacionamento, não tem direito de viver livremente. Ser mulher é um desafio, uma batalha. E é por isso que as mulheres são seres extremamente fortes, para que possamos suportar esse mundo cão. E é aí que entra o feminismo, ele nos ensina a usar a nossa força, ele nos educa, nos faz ter consciência de nossos direitos, de nosso valor na sociedade, ele nos dá voz. Ser mulher e ser feminista é um ato de coragem. Acho que no último ano o feminismo ganhou um espaço extraordinário na mídia, fazendo milhares de mulheres acordarem e reivindicarem seus direitos. Os homens? Existem aqueles que respeitam o movimento e apoiam a causa. Já os “machos” ficam enlouquecidos e dizem coisas absurdas. Eles não querem perder esse “poder” que lhes foi dado culturalmente falando. Mas a revolução e a desconstrução são inevitáveis.

S.T. – Você fala sobre sua luta e sobre persistir diante de tantas pessoas que discordam de ti… Como você lida com a questão de atingir tantas pessoas com sua intimidade? O que você tem aprendido com essa troca?

H. – A minha luta não é persistir contra a opinião contrária, e sim combater a opinião que mata. O que é a opinião que mata? É uma pessoa achar que o estupro pode ser justificado pelo tamanho da saia de uma mulher. Eu luto contra pensamentos que podem me prejudicar, prejudicar minha mãe, minha irmã, minhas amigas, etc. Respeito opiniões divergentes, mas que são sensatas. Já as opiniões que tiram o direito do próximo, essas eu caio matando em cima. Eu recebo centenas de mensagens diariamente de pessoas me agradecendo, dizendo que mudaram sua postura, seu pensamento, sua forma de agir, dizendo que se curaram de traumas e medos. Isso tem sido o maior aprendizado que a vida tem me proporcionado: as palavras podem mudar a vida das pessoas.

 

S.T. – O que é poesia pra você? Como é se comunicar através dela? Como é o seu processo de criação?

H. – Poesia é a minha vida. Ela compõe minha alma, meu espírito, minha mente. Acho mágica a conexão que ela traz para minha vida, através dela eu me conectei com centenas de pessoas, e isso é sensacional. Eu não tenho um “processo de criação”, quando percebo já estou escrevendo. É só bater a ideia, surgir o sentimento, e as palavras já fluem naturalmente. 

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S.T. – Na sua opinião, o que a palavra escrita pode fazer pelo mundo? Você acredita que a poesia seja uma linguagem acessível a todos?

H. – Eu acredito que usando as palavras certas, você pode mudar o mundo. E com certeza é uma linguagem acessível a todos, até para aqueles que não sabem ler. Pois tenho lutado para que encontros poéticos possam acontecer sempre, pois assim as pessoas que não tiveram a oportunidade de aprender a ler, poderão escutar as palavras e sentir o poder delas.

 

S.T. – E o corpo? Que território é esse? O que pode o corpo? Como você lida com sua nudez?

H. – O corpo é o nosso território. Nosso mundo particular, nosso paraíso. O corpo pode tudo! Pode te enlouquecer, te acalmar, te dar prazer, ele é o único capaz de fazer você se sentir vivo. Eu amo meu corpo. Adoro fazer fotos nua, e nem são para mandar para alguém, são para guardar mesmo. Gosto de ver as fotos depois, ver as mudanças, o amadurecimento. Acho extraordinário. A nudez é perfeita quando se faz dela uma arte.

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 S.T. – Quem é Helena entre quatro paredes? O que desconstrói suas certezas sobre si mesma? Quais suas maiores contradições?

H. – Entre quatro paredes eu sou uma pessoa que brinca o tempo todo. Gosto de fazer as pessoas rirem. Eu não tenho medo de me expressar e de falar o que penso. Gosto de sentir e dar prazer sem nenhum tabu ou limite. Acho que o amor tem o poder de desconstruir qualquer incerteza que paira sobre mim. Minhas contradições são meus vícios. Sou contra o fato do ser humano se aprisionar a algo ou alguém, e eu tenho algumas prisões.

 

S.T. –  Amor, solidão, silêncio, liberdade e medo… como você lida com essas cinco palavras?

H. – Amor eu sinto sem medo. Silêncio eu faço para alcançar a liberdade. Liberdade eu busco em silêncio. E o medo jamais destruirá o meu amor.

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S.T. – O que te causa revolta? E alegria?

H. – Mentira e injustiça despertam os meus demônios. E viver já é uma alegria constante.

 

S.T. – Quais e quem são as suas maiores inspirações?

H. – A música, a arte, a literatura, são minhas maiores inspirações. Não gosto de dividir com o mundo meus mestres, pois tenho um puta ciúmes deles. Mas vou citar alguns: Brian Molko, Charles Bukowski, Janis Joplin, Ferreira Gullar, Renato Russo e Cazuza.

 

S.T. – E o mundo da internet… que lugar é esse?

H. – Um lugar que pode ser podre e divino. Depende de quem está do outro lado da tela.

 

S.T. –Como estão os planos para o lançamento de seu livro? Fale um pouquinho sobre ele…

H. – Meu livro será lançado no final de fevereiro. É uma surpresa para mim pois aconteceu mais rápido do que eu esperava. Mas só tenho a agradecer as pessoas que estão me ajudando a construir esse sonho. Meu noivo tem me ajudado muito nas questões de programação, coordenação, organização, etc. O pessoal da Crivo editorial tem sido muito atenciosos e prestativos em cada detalhe. Serão 50 poemas e algumas ilustrações que foram feitas exclusivamente para o livro. Mas vou deixar todo mundo curioso porque sou muito mal.

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S.T. – O que você faz em seu dia-a-dia que te torna uma pessoa melhor?

H. – Eu escrevo. Eu amo. Eu luto. Eu sonho. Isso me faz melhor.

 

S.T. – O que você faz para tornar o mundo um lugar melhor?

H. – Sou eu mesma. Acho que se as pessoas parassem de seguir modinhas, padrões, conceitos impostos pela sociedade, etc… O mundo seria um lugar melhor. Falta verdade nas pessoas. Falta paixão. Então eu sou eu mesma sempre, e isso tem feito a diferença ao meu redor.

 

S.T. – Teria algum projeto, pessoa ou ideia que você gostaria de ver sendo divulgado por nós? Por quê?

H. – Sim. A Banda “Faca Amolada”. São um pai e seus dois filhos que tocam. Eles foram impedidos de tocar nas ruas de BH. Sofreram preconceito e a música deles é poesia pura. Gostaria que a poesia tivesse mais valor e reconhecimento na mídia. Falta essa paixão pela literatura. E se todos compartilhassem dessa ideia seria maravilhoso. 

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Para acompanhar  o trabalho de Helena, assista seus vídeos pelo Youtube, curta sua página no Facebook e  Instagram.

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Helena Ferreira por Sem território.

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