Hoje quem traz um pouquinho de inspiração pra gente é a Kamilla, mulher sorridente e bordadeira de primeira. Se arrisca em expressar suas cores com riscos no papel e em tecidos, ama viajar e vê a arte como a beleza do sensível. Tem uma relação de amor pelas ervas, pela natureza e pelo mundo e pinta o mundo com tintura natural. “Com agulha e com afeto” ela nos dá o prazer de saber um pouquinho mais sobre ela e seu trabalho. E acreditar no amor como a maior revolução possível é um dos motivos dela nos inspirar.

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S.T. – Fale um pouquinho sobre você… Quem é Kamilla? O que você gosta de fazer no seu dia-a-dia?

K. – Hoje, eu sou esposa e dona de casa! Algo que sempre sonhei ser… Mas, também sou “coisas” que eu sempre fui e que sempre se fizeram presente no meu dia a dia: alguns definem isso como ser artesã, outros ainda dizem que eu faço “arte”. Tudo que eu sei é que linhas e agulhas, tintas, papéis, lápis de cor, pincéis, fios, barbantes, lãs, máquina de costura, sempre fizeram parte da minha rotina e do que eu sou. Acho que é bem difícil pra quem me conhece pensar “Kamilla” sempre pensar em “manualidades”.

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Kamilla por Lírica Aragão Fotografia

S.T. – O que é a arte pra você?

K. – Pra mim, arte é todo produto visual e auditivo (que muitas vezes também passam pelo tato, olfato e paladar) de um sentimento que desperta sentimentos. Por exemplo, uma foto (idéia, cor, luz, sombra, cena, etc.) que surge de um sentimento do fotógrafo e se transforma naquele “pedaço de papel com algo gravado nele”, e que ao ser visto gera sentimentos. Não sei se posso considerar arte algo que não passe pelo sentir. Vejo a arte como a beleza sensível no mundo caído e caótico.

S.T. – Como a arte surgiu em sua vida?

K. – Meus pais sempre me incentivaram a fazer arte! Talvez pela influência “sensível” causada pelos meus avós – um músico e outro comunista! Desde muito pequena sempre tive muitos lápis de cor, muitos papéis e todo incentivo em livros e aulas que meus pais podiam me dar. Eles nunca me obrigaram a fazer aula específica de algo e sempre me apoiaram nas minhas mudanças de área: um ano eu decidia estudar piano, no outro corte e costura, ai descobria a flauta e logo queria fazer ilustração. E assim eu fui aprendendo muita coisa. Descobrindo a arte (e a arte em mim), conhecendo técnicas, desenvolvendo minhas habilidades e sensibilidades. É como eu disse antes… é bastante difícil pensar em mim sem “arte”.

 

S.T. – Fala pra gente sobre o “com agulha com afeto”, quando você decidiu fazer dele o seu trabalho? O que você produz? Você aceita encomendas?

K. – Eu sempre costurei, bordei, teci… E várias vezes consegui um dinheirinho através disso. Primeiro eu tive a Margarida, onde eu costurava, fazia peças de crochê e qualquer coisa que um cliente pudesse querer desde roupas até acessórios e peças de decoração pra casa. E de alguma maneira sempre tive o “artesanato” como uma atividade que pudesse me gerar renda. A Margarida viveu um bom tempo! Mas, esse projeto chegou ao fim. Anos se passaram, muita coisa aconteceu… e no fim de 2015, enquanto passava um tempo com meu esposo no Chile, descobri meu encantamento pelo bordado livre. Descobri no bordado uma oportunidade de fazer uma das coisas que mais gosto: ilustrar! Assisti a um curso online, dado pelas meninas do Clube do Bordado, e me apaixonei mais ainda pela técnica. E assim foi surgindo a “com agulha com afeto”: bordados livres e modernos, feitos 100%, muitas vezes combinando a aquarela com o bordado.

A com agulha com afeto ainda é um bebezinho, mas já tem tido várias encomendas, projetos e parcerias. Eu gosto de trabalhar com peças únicas, a gosto do cliente. Todo processo de criação das ilustrações para o bordado, escolha da cor, do tamanho tem acompanhamento direto do cliente. Amo esse processo. É possível conhecer muito das pessoas nesse tempo. Daqui um tempo, sonho agregar nos produto da com agulha com afeto, bonecos de pano e peças de crochê (duas outras paixões).

S.T.- O que você mais gosta no seu trabalho? Quais as maiores dificuldades?

K.- É difícil falar do que mais gosto no meu trabalho. Cada momento dele tem um toque que me encanta. O processo de criação as vezes é difícil, pois nem sempre o cliente tem clareza do que quer, ou algumas vezes é bastante indeciso, mas ao mesmo tempo é uma delícia criar. O inicio do bordado é uma ansiedade (boa) só! O desenho vai ganhando vida no tecido. E o trabalho pronto… não precisa nem dizer!
Gosto da flexibilidade de horário que meu trabalho me dá, e também da possibilidade de estar em casa!
Quanto aos contratempos posso citar a dificuldade de achar alguns materiais – como cada vez menos as pessoas tem se interessado pelo bordado, muitas vezes achar bastidores é uma tarefa dura… muitos armarinhos nem fazem mais pedidos por exemplo, por não terem venda. Outra dificuldade é o “trabalhar em casa”: as pessoas demoram a entender que você está em casa mas, ESTÁ TRABALHANDO (rs)!  E isso, pode causar alguns transtornos!

S.T. – Você comentou que fez moda, ha um tempo atrás quando costurava… qual seu olhar sobre esse mundo?

K.- Dificilmente eu trabalharia no mundo da moda, mesmo tempo estudado moda. Na época, eu tinha a Margarida e sentia a necessidade de dar um ar mais profissional aos meus trabalhos, então busquei uma especialização no SENAC. Foi um tempo ótimo e aprendi muitas coisas. Meu trabalho final foi a criação de uma coleção primavera/verão inspirada na Carta da Terra. Sim! Meio ambiente e todo esse papo verde também sempre fez parte de mim! E justamente nesse ponto eu tinha vários problemas com a indústria da Moda. Facilmente se percebe apego desenfreado ao ter nesse meio, e isso pouco tem a ver comigo, com meus princípios de vida e com o que sonho para minha família. Sem contar o altíssimo impacto ambiental gerado pela Moda. É bastante difícil ganhar espaço nesse meio, se você caminha pro lado oposto dele.

 

S.T. – Trabalhar com bordado é solitário? Como é a sua relação com a solidão?

K.- Sempre fui muito sociável, daquelas pessoas rodeadas de amigos e que vive com a casa cheia. Pra mim, estar sozinha sempre foi um desafio. Minha personalidade não é do tipo que vai ao cinema sozinha! Mas, com o passar dos anos, com a maturidade que vai chegando a gente vai entendendo que estar sozinho é tão bom quanto estar cercado de gente. Que relacionar-se com o silêncio, consigo mesmo é fundamental pra que o barulho e outros também sejam prazerosos. Tenho vivido um novo tempo: casamento, nova cidade, novos desafios e sem dúvida o tempo que passo “sozinha” bordando é precioso. É um tempo de concentração.

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S.T. – Você também trabalha com ilustração, como é o seu processo de criação?

K. – Mesmo que eu sempre tenha desenhado, nunca me vi como alguém que ilustra. Nos últimos meses é que tenho encarado e acreditado no meu potencial pra isso. Nunca comercializei uma ilustração minha. Esse mundo ainda é novo pra mim. Recém criei um instagram pra compartilhar minhas ilustras. Por agora, acho que estou mais no processo de estudo que de criação dentro da ilustração. Tenho dedicado bastante tempo a fazer esboços de olhos, mãos, bocas, posições, cabelos. Mas, nos momentos que crio algo sempre a criação surge depois de muita observação e algo que senti, ouvi, li, vi. É comum que eu desenhe momentos que vivi ou algo que estou sentindo.

S.T. – Você tem grande ligação com as plantas e ervas, conta pra gente como é essa relação?

K.- Sempre gostei da natureza. E com o passar dos anos isso só vem crescendo. Depois que estudei Agroecologia isso multiplicou. Como cristã, sempre entendi que não se pode amar a Deus sem cuidar de sua criação. Isso sempre fez parte da minha relação com Cristo. Creio que Deus nos provê tudo que necessitamos na natureza: desde alimentos, remédios, até métodos, exemplos, direções, etc. Diante disso, porque não desfrutar dessa imensidão com amor e gratidão? É isso que tento viver. E como Ser integral que Deus é, entendo que minha vida também deve ser, logo tentar fazer um “tudo do todo” mesclou minhas habilidades pra arte com a natureza, e nesse caminho descobri coisas lindas como o tingimento natural (tingimento de tecido com plantas).

 

S.T. – O convite de seu casamento foi de sementes para serem plantadas, de onde surgiu essa ideia? Os convidados levaram a sério a proposta?

K.- Meu casamento foi um delícia. Desde que eu e o Thiago decidimos nos casar, decidimos também que não queríamos ser aqueles noivos estressados, ou que gastam horrores pra cerimônia, tampouco queríamos contratar pessoas que mal nos conhecem pra preparar esse dia tão importante pra nós. Então, decidimos que faríamos tudo que podíamos. Eu me encarreguei de montar toda a decoração e o Thiago da papelaria do casamento. Como estávamos fazendo tudo bem rústico (a nossa cara), o Thiago teve a ideia de usar papel semente para os convites. Não queríamos que as coisas do nosso casamento fossem só “coisas” que depois ficariam esquecidas nas gavetas dos convidados. Queríamos que tudo tivesse uma utilidade. E assim foi! Começando pelos convites. Todos amaram a ideia do papel semente – ainda que muitos diziam que sentiram pena de rasgar o convite pra plantar as sementinhas (rs) – e muito plantaram! O convite de uma das minhas tias foi uma surpresa: ele brotou e era uma linda orquídea. Como as sementes eram variadas não tínhamos ideia do que nasceria.

 

S.T. – Você fez WWOOF ano passado, conta pra gente como foi essa experiência… Tem planos para repeti-la? Você gosta de viajar? Por quê?

 K. – Sim! Eu e meu esposo nos casamos e fomos rumo ao Chile fazer WWOOF e conhecer lugares possíveis para uma morada futura. Nossa primeira experiência dentro do WWOOF não foi das melhores. Creio que não demos sorte na escolha de quem nos receberia. Mas, o programa é bastante sério e em todo tempo nos prestaram muito apoio. Ainda que tivemos contratempos na primeira propriedade que nos voluntariamos, aprendermos muitas coisas valiosas. E sem dúvidas isso é o melhor que o WWOOF proporciona. Aprendemos por exemplo, que é muito fácil você morar num paraíso verde, trabalhar com a terra e ter uma vida simples, mas seguir com a lógica consumista da cidade grande. Na segunda propriedade que fomos, conhecemos um trabalho incrível. Tratava-se de uma ONG que difundia princípios de agroecologia em uma cidade e faziam isso através de arte e cultura, além de atividades agrícolas.
É bem possível que um dia tenhamos oura experiência dentro de WWOOF.
Eu amo viajar! Se pudesse eu vivia viajando. A enxurrada de cores, culturas, ensinamentos, que a gente recebe quando viaja é incrível. Amo em especial a América Latina.

 

S.T. – Você se formou em agroecologia na UFPR litoral, como foi fazer o curso? Quais foram seus maiores aprendizados dentro dele?

 K.– Cursar Agroecologia, sem dúvida, foi uma maneira de fortalecer meus princípios. Agroecologia fala sobre meio de vida, muito mais que uma profissão. A humanização presente no curso é incrível. Aprendi muito sobre técnicas de plantio, sobre biodiversidade, cultura local do Litoral do Paraná, alimentação, vida! E uma das coisas que mais me marcou nesse tempo foram as aulas de plantas medicinais e Educação do Campo. Cresci demais nesses temas e eles deixaram marcas em mim.

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S.T. – Como você vê a situação do mundo hoje? Que atitudes as pessoas poderiam tomar para causar menos impacto ao mundo?

K.- Pode parece meio utópico, mas minha resposta é amor! Somos seres caídos num mundo caído, fato! Isso explica o caos que vivemos. Mas, dentro disso existe uma esperança no amor! Creio de verdade que se as pessoas voltassem a amar mais (umas as outras e tudo a sua volta), melhoras aconteceriam.  Se uma pessoa não ama a si mesmo, o outro, sua cidade, não ama sua cultura, não ama a criação dificilmente ela vai pensar em separar o lixo, em cuidar da alimentação ou economizar água no banho. Sempre existem alternativas para causar menos impacto, mas para que elas sejam colocadas em prática é preciso amor.

 

S.T. – Qual a sua frase favorita? Por quê?

K.- Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: “É meu!“. (Abraham Kuyper)

Pensar que tudo em mim e ao meu redor estão sob o domínio do Deus soberano, Criador dos tempos e de tudo que neles existem, enche meu coração de paz e simplifica minha vida a ser por Ele, Dele e para Ele.

S.T.: Quais suas maiores inspirações? 

K.- Além do Pinterest? Hahahaha. Brincadeira. Tenho muitas coisas e pessoas que me inspiram. Acho que pra cada área da minha vida tenho uma listinha de inspirações. Música me inspira, pessoas que lutam por justiça me inspiram, gente que ama me inspira, o amor em si me inspira. O pôr do sol da minha nova cidade é inspirador! Rubem Alves me inspira. Meu marido me inspira. Em cada momento, surgem “maiores” inspirações pra mim!

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Detalhe de casamento feito por Kamilla por Lírica Aragão Fotografia.

 

S.T.: O que você faz em seu dia-a-dia que te torna uma pessoa melhor?

K.- Hoje, tenho tentado praticar o silêncio. Acho que isso me torna uma pessoa melhor.

 

S.T.: O que você faz para tornar o mundo um lugar melhor? 

K.- Tento servir as pessoas ao meu redor, busco a paz, tento me preocupar menos com coisas insignificantes. Cuido das minhas atitudes quanto a produção de lixo.

S.T.: Você indicaria alguém ou algum projeto que gostaria de ver sendo divulgado por nós?

K. – Além da “com agulha com afeto”?! (rs)

Posso indicar os trabalho lindos da “Arte da Terra”, do meu amigo Jhon Bermond. São de incrível conexão com a natureza, além de em muitas artes serem utilizadas tintas naturais.

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Para acompanhar seu trabalho, saber mais informações, encomendas e orçamentos entre em contato pelo Facebook.

Instagram: @comagulhacomafeto; Ilustrações: @kamilla.correa

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Kamilla Correa por Sem território.

 

 

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