Essa mulher de noventa e cinco anos de idade, mãe de onze filhos, quatro homens e sete mulheres, enterrou o marido, dois filhos, netos, bisnetos… Gerou uma família vasta, com sei lá quanta gente vindo dela. Matriarca, mulher parideira, andava manso e pesado.

Sabia fazer jardins imensos do tamanho de sua alma. Com ela é assim, pequeno e pouco não basta. Em tudo, sempre cabia mais um, sempre dava mais um pouco. O que importa é tá junto, mesmo que em silêncio ou cochilando em sua cadeira de balanço.

Essa mulher, era minha vó. Mãe de meu pai. De onde herdei o tamanho e os trejeitos de meus pés alargando meus passos. Essa mulher, sempre misteriosa, mesmo que transparente e moleca até o último suspiro, dançava há poucos dias sacudindo suas dores.

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Por se vestir de tanta história, Dalva sempre foi muitas. Ia do silêncio ao grito de um palavrão numa serenidade alegre que me enchia o peito e me abria o riso. Atravessava corredores enquanto peidava e ria. Cozinhava, cuidava da casa, cantarolava, cochilava ou dormia enquanto contava uma história. Jamais me assumiu seus roncos mas assumia acordar excitada com a calcinha molhada dependendo de seus sonhos.

Vivi a morte de Dalva por alguns dias. Vi sua imagem enfraquecida com o olhar se distanciando aos poucos desse jeito de estar viva. Vi a dor de minha vó presente em seu olhar. E vi seu olhar cansado pela primeira vez. E percebi que noventa e cinco anos de história é carga que pesa. A chama de minha vó foi se apagando aos poucos. Mas a bicha é tão vasta, que teve a proeza de morrer se despedindo da família. Recebendo amor e aconchego até seu último suspiro. Logo ela, que sempre foi muito de dar tudo o que podia. Seu último pedido foi uma pá e um rastelo pra cuidar do jardim quando estivesse melhor.

Hoje, Dalva descansou. Fechou seus olhos e exalou sua última gota de vida. Foi fazer jus ao brilho que tinha no olhar, virando parte de tudo. Me fazendo nascer, com sua morte, a mulher forte que grita sem culpa e sustenta um mundo imenso dentro de si.

Agradeço por tudo, vó.

Vai em paz cultivar todo e qualquer jardim possível nesse outro modo de existir, que eu daqui vou tentar herdar o que eu puder sobre aprender a colher o que eu plantar.

Saravá!

 

 

 

 

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