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De pensar que perdeu várias horas de sono por desejar fortemente estar dormindo. Que seja levemente como de costume. Acordando atento a cada ruído ou movimento, ainda que seja de seu próprio corpo.

De pensar que pensou tanto e até se perdeu em ideias redundantemente contraditórias, como num espiral de si mesmo, correndo atrás de seus próprios rabos. Em suas noites costumeiras, se via com os olhos esbugalhados, segurando forte as mãos da insônia: como quem segura uma mão adulta ao atravessar a rua quando criança.

Mas hoje, a rua movimentada de carros velozes e desgovernados, ultrapassando os sinais das horas, atropelando pedestres, dando cavalos-de-pau, virando a esquina sem freio e quebrando todos os postes, era sua cabeça: essa a que costuma carinhosamente chamar de seu manicômio de pensamentos.

Hoje, sozinho, como uma criança que não sai de casa, não segurou mão alguma. E se mantendo fiel a sua ansiedade, inquilina principal de suas vísceras, se percebeu devaneando em seus exagerados excessos enquanto mordia seus próprios dentes. Enquanto franzia a testa e estalava os dedos a cada trinta segundos.

Passou a noite inteira tentando atravessar a rua. Buscou segurar suas próprias mãos, como quem se apóia no próprio desespero. Sentiu saudade de si mesmo. Se repeliu, se duvidou e como que dividido se perdeu em milhões de pedaços. Como se pudesse explodir seus textos decorados e olhasse letra por letra cair… uma a uma, desconexas de tudo o que julgava saber como ele… Tantos “eus”… Se viu boiando nu em cada entrelinha de suas entranhas. Estranhas palavras. Se viu entre cada poro de seu corpo e invisível, riu de sua própria desgraça. E achou graça por não se saber mais tão definido. Tão completo e pleno de palavras decoradas. Tão nu, entretanto, de tantas máscaras, de tantos papéis ou de seus devaneios sobre “corpo sem órgãos “.

Segundos em choque, acordou plerpléxo e estático em suas infinitas afasias. Acabou por destruir seu palácio de memórias tão enrijecidas. E como quem abre os olhos, mesmo não tendo fechado nem por um segundo, se deu conta de que acabara de sonhar… acordado. Em estado completo de tamanha vigília.

Tinha esquecido como era se relacionar com a madrugada. Horas a fio sendo seu aliado. Fiel escudeiro sem escudos ou proteção alguma. Ouvindo o canto dos pássaros que avisam a hora de acordar, o céu carregado clareando num cinza alaranjado, sua cabeça ainda em erupção, seus dentes quase que pela metade… Resolveu abrir o peito como quem se joga num abismo sem chão, soltar as mãos como quem se solta de suas amarras, e deu o primeiro passo.

Atravessou a rua como quem corre de olhos fechados sem medo de tropeçar. Afinal ali, e assim, só poderia tropeçar em si mesmo e de fato, com isso já estava bem acostumado. Tropeçar em suas palavras esquizofrênicas, cheias de devir e sem dever nada a ninguém.

Atravessou sem que nenhuma palavra o atropelasse, sem que nenhum pavor o derrubasse com as pernas trêmulas no chão… Atravessou as ruas de sua insônia como se o atravessasse inteiro. E de corpo todo lembrou como é estar consigo enquanto o mundo dorme. Lembrou como é ouvir o silêncio da noite, como quem caminha leve e livre no meio das ruas, esboça um sorriso no canto da boca enquanto brinca de se equilibrar na beirada da calçada.

Ali, era ele e ele.

E só.

Em plena solitude, livre de medos ou desvirtude alguma.

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